Profissionais
e usuários destacam as principais características do mundo digital
Juliana
Calache
O jornal impresso continua - e deve permanecer por mais
alguns anos -, apesar dos presságios pessimistas. Para os mais apressados, o
futuro já chegou. Enquanto isso, os “papeleiros” de plantão sustentam que a
migração completa para o suporte www
não é uma preocupação urgente, e que a palavra impressa se sobrepõe ao
encantamento com a tecnologia.
A comunicação é uma das maiores necessidades do ser humano.
Através dela, nos mantemos informados, realizamos trocas e obtemos espaço na
sociedade moderna. Atualmente, a integração entre economia, cultura e política
impulsiona, mais e mais, a agilidade do diálogo interpessoal. Cada minuto se
torna indispensável e, principalmente, valioso. Nessa corrida incessante pelo
câmbio de conhecimentos, a busca por informações em tempo real é a maior
dificuldade do jornalismo atual.
O
sucesso da Internet revolucionou o modo como nos comunicamos. Trata-se do meio
mais eficaz para satisfazer a necessidade humana de velocidade de informação.
Dessa
forma, o mundo digital se tornou uma grande ameaça ao jornalismo impresso.
Afinal, a disponibilidade de conteúdo online e gratuito é, para uns, mais
atraente que o papel pago.
Sobre o que eles pensam
Segundo
o professor de Comunicação Social da UFRJ Muniz Sodré, em entrevista dada para
o Observatório da Imprensa, o
jornalismo aprofundado e meticuloso tem seus dias contados, pois “os leitores
não se interessam mais em análises e críticas”.
De
fato, pessoas de todo o mundo recorrem ao jornalismo online para se manterem
informadas. Com notícias quentes e atualizadas, a Internet conquistou seu
público. É o caso da Mídia Ninja, que utiliza smartphones e laptops para
transmitir, ao vivo, a onda de protestos que tomou conta do Brasil em julho
desse ano e já atingiu a marca dos 100 mil espectadores apenas em São Paulo.
A
estudante Anahê Gabriela, 20, admite que, entre o impresso e o online, sua
maior fonte de notícias é o mundo digital – principalmente as redes sociais:
“Nunca tive o hábito de ler jornal ou revista impressos. Tenho pouco tempo pra
isso”. Entretanto, ao contrário do que pensa Muniz Sodré, Anahê diz ser fiel ao
jornalismo mais aprofundado da rádio e critica o webjornalismo: “Tem muita
besteira, muita matéria superficial. É difícil achar alguma coisa que realmente
interesse. Acabamos sabendo um pouco de tudo, sem saber muito de nada”.
O
jornalista e professor da PUC-Rio Célio Campos concorda que “as vantagens de
estar permanentemente atualizado, com as notícias em tempo real”, é algo
positivo para o webjornalismo. Ainda
assim, ele confessa: “Sou mais fiel ao papel que suja as mãos. Ainda mantenho
assinatura de dois jornais e duas revistas”. Sobre as desvantagens da
plataforma online, Célio diz que são muitas: “A começar pela necessidade de
veiculação imediata, que deixa brechas para imperfeições e informações
distorcidas, por conta da pressa. Sou de um tempo em que se tinha mais espaço
para aprofundar a reportagem. Hoje isso está diminuindo muito”.
No
dia em que o ministro Celso de Mello votou a favor dos embargos infringentes no
processo do Mensalão, o portal G1
cometeu diversas falhas - entre elas esquecer o plural em “Com isso, o encerramento da ação penal e o cumprimento
das prisões deve ficar para 2014” ou repetir, em parágrafos seguidos, o início
de frase: “Pelo regimento”. A linha de raciocínio da matéria confunde o leitor
e não cumpre sua principal função: informar. Já a notícia dada pelo jornal O Globo é explicativa, bem apurada e não
possui erros gramaticais ou ortográficos.
Talvez devamos pensar o jornalismo online não como um
adversário, mas sim aliado do tradicional impresso. Com públicos distintos,
apurações diferenciadas e objetivos contrários, a parceria entre ambos é, de
fato, mais vantajosa do que sua concorrência .
A suposta (im)parcialidade da Mídia Ninja
Desde
as manifestações ocorridas em Junho de 2013, as atenções voltadas para a mídia
tradicional adquiriram um olhar mais crítico. Após uma série de acusações sobre
a sua incapacidade de cobrir os protestos de maneira imparcial, surge, talvez,
uma nova forma de se fazer jornalismo: a Mídia Ninja.
Apesar
do nome – acrônimo de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação -, a Mídia
Ninja põe em questão, para muitos seguidores, a veracidade de sua (suposta)
imparcialidade.
De
acordo com o mito jornalístico, repórter que se preze é aquele isento de
qualquer tipo de influência sobre a pauta em questão. De fato, a objetividade é
indispensável no desenvolvimento de qualquer matéria. Torna-se necessário,
então, ouvir, observar e analisar todos os lados de um acontecimento. No entanto, esse tipo de apuração (neutra) pode
ser capaz de deteriorar, mesmo que minimamente, a qualidade da reportagem.
Afinal, o olhar estrábico e certeiro, ao mesmo tempo, é humanamente impossível.
Nesse sentido, a neutralidade tão aclamada pela Mídia Ninja é, talvez,
superdimensionada.
“A
Mídia Ninja se tornou rapidamente uma fonte confiável de informação para muitos
dos envolvidos nos protestos em todo o Brasil”, diz um texto do jornal
britânico The Guardian. Mas, como
afirma o ex-deputado do Partido Verde Fernando Gabeira, “os jovens da Mídia
Ninja (...) em vez de defender a imparcialidade, afirmam que a verdade surgirá
do intercâmbio de múltiplas parcialidades. Apontar a câmera para um lado, e não
para o outro, já significa uma escolha pessoal”.
Uma
estudante de 21 anos que não quis se identificar participa do movimento “Ocupa
Cabral”, contra o governador do Rio de Janeiro. Segundo ela, “na mídia
tradicional só mostra o pós. Sempre são os manifestantes que começam, que
quebram tudo e não é assim. Eu vejo o abuso da PM em cima e a Mídia Ninja anda
mostrando bem isso”. Já o publicitário Ignácio Werneck, de 22 anos, que também
participa do movimento, acredita que “o objetivo dela não é construir matérias
sobre o protesto, como a mídia tradicional, mas sim transmitir a realidade dos
manifestantes”.
Talvez
o grupo Mídia Ninja não seja, em si, uma nova forma de jornalismo. Mas, sim, um
novo formato – complementar e em desenvolvimento – para o jornalismo tradicional.
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