Leitores e
especialistas falam dos lados bom e ruim das maneiras de ler as notícias
Marina
Burdman
"Jornalismo
Independente é tendência. Vem!". É o que diz uma das postagens da
página oficial do Coletivo Nigéria, veículo jornalístico online e independente.
A frase, usada para estimular os leitores a contribuírem com doações para um
outro site de notícias online, é representativa dentro do quadro atual de
discussões sobre o futuro do jornalismo. A cobertura online e ao vivo que parte
das mídias independentes, como a Mídia Ninja e outros coletivos, realiza das
manifestações populares que ocorrem pelo país desde junho fez crescer e
divergir as opiniões sobre o destino da profissão. O jornalismo tende a se
tornar 100% online? As mídias independentes tomarão o lugar das mais
tradicionais na cobertura de eventos cotidianos? Há imparcialidade em algum
tipo de jornalismo? As respostas para essas perguntas apontam para o mesmo
lugar: a incerteza com relação a qual seria o melhor meio de passar as
informações.
Assim
como a opinião dos próprios jornalistas diverge, cada leitor tem uma
preferência quanto ao modo de se atualizar. Enquanto parte deles afirma que não
vive sem o papel, outra acredita que a instantaneidade do online é
indispensável e supre todas as funções do impresso. É o caso do aposentado
Rodolfo Pinto que, apesar de acompanhar o jornalismo impresso desde criança,
aos 54 anos decidiu abandonar totalmente os hábitos antigos e afirma ter se
rendido ao online. "Estou aposentado e, apesar de ter tempo para ler o
jornal, prefiro ler as notícias pelo tablet. Lá eu leio tudo o que tem no
jornal impresso, mas posso ir clicando em matérias relacionadas que aconteceram
há menos tempo", explica. O ex-engenheiro conta que não acredita que o
jornalismo online leva à superficialidade. "Nos sites, eu consigo
encontrar até os colunistas do impresso, normalmente em blogs. Não vejo como
uma coisa superficial, e, sim, como um leque maior de possibilidades",
afirma.
Já
a estudante de cinema Monique Rangel diz que não consegue se desvincular do
jornalismo impresso. Para ela, a grande quantidade de estímulos do online
impede que ela se acostume com a internet. "Eu não consigo absorver as
informações que leio online. É ridículo, dá meia hora e já esqueci. Acho que é
uma questão familiar. Eu fui acostumada assim", afirma. Monique diz que
não vê nenhuma vantagem no jornalismo online que não exista em algum outro meio
de comunicação. "Eu poderia falar que tem a vantagem da instantaneidade,
mas isso a TV tem, o rádio tem, então não sei muito bem o que diferencia",
diz.
Quando internet e
papel se complementam
Entre
um extremo e outro, Julia Cruz, professora da PUC-Rio e coordenadora adjunta do
Projeto Comunicar, que trabalha com notícias online e impressas relacionadas à
universidade, acredita que esses tipos de jornalismo são complementares. Ela
pensa que é possível a colaboração entre todos os tipos de mídias. Do ponto de
vista de quem faz a notícia, Julia, que já trabalhou no jornal O Dia e
hoje edita o portal online para crianças Dicas da Dinda, afirma que a
principal diferença entre o online e o impresso é o público que cada um atinge.
"Na hora em que você elabora o fluxo de notícias, você vai de acordo com a
proposta de atualização que o veículo tiver. Se você tem um hardnews,
você tem que ser de um jeito. Até a forma como você escreve é diferente, é a
maneira de você viajar na notícia", explica.
Para
ela, o fato de as informações serem lidas online ou nos veículos impressos é
apenas uma das características da notícia. Julia acredita que o principal é o
tipo de conteúdo que os leitores buscam. "Não muda muito se é online ou
não. O Dicas da Dinda, por exemplo, tem um público que se assemelharia ao
de um Rio Show para crianças. Então tudo depende, são públicos diferentes e
formas diferentes de veicular a informação", afirma. Segundo Julia, a
internet trouxe a possibilidade de ter mais veículos complementares pelo fato
de ser mais barata. Ela aponta as mídias online como meios de entrar em contato
com um maior número de pessoas e acredita que elas deixam mais espaço para
trocas e experimentações.
Importância
reduzida para os ninjas
A
participação em massa da população durante as manifestações que ocorrem desde
junho pelo Brasil deve-se, em grande parte, às transmissões ao vivo dos atos
via internet. Por meio de redes sociais, como Facebook e Twitter, é possível
acompanhar e sentir-se integrante dos protestos, mesmo que de casa ou do
trabalho. O primeiro nome que vem à cabeça das pessoas quando o assunto se
trata dessas transmissões é a Mídia Ninja. O engajamento do grupo que promete
transmitir ao vivo e na íntegra as manifestações é tido como um futuro provável
para o jornalismo, ou até mesmo como o único possível para a profissão.
O
canal, no entanto, não impressiona da mesma forma quem já estava envolvido com
os atos antes de eles tomarem a proporção atual. Na praia do Leblon, em frente
à casa do governador Sérgio Cabral, há um grupo de militantes acampado há mais
de um mês como forma de protesto. De black blocs a moradores de rua, eles vivem
em uma espécie de comunidade que compõe o Ocupa Cabral. O tom de divisão de bens
atinge a qualquer um que chegue perto do grupo, que oferece cobertores e
sanduíches a quem ocasionalmente pare para uma conversa. Os integrantes são
parte do pequeno número de pessoas engajadas nos atos que, apesar de gostarem
da Mídia Ninja, acreditam que ela é apenas um dos canais em que se pode obter o
que chamam de jornalismo de qualidade. Isso é colocado pelo grupo de forma tão
enfática que destacar as outras mídias parece ser um dos objetivos dos
acampados. "Quando você diz Mídia Ninja, você está me perguntando da mídia
independente em geral ou especificamente da 'Narrativas Independentes,
Jornalismo e Ação'?", perguntou imediatamente o rapaz que vestia uma boina
igual a do ex-líder revolucionário Che Guevara, que disse também se chamar
Ernesto. "As pessoas confundem muito. Mídia independente é toda aquela em
que as pessoas estão com a câmera na mão e querem mostrar a verdade. Ela é mais
humana", argumentou.
A
questão da humanidade foi a que Ernesto mais fez questão de destacar. O
professor de Biologia, que participa da ocupação desde que ela teve início,
acredita que os jornalistas contratados pelas grandes empresas, ao aceitarem a
incumbência de reportar a partir dos interesses de um pequeno grupo, estão
"perdendo as características humanas e deixando de ser participativos com
o povo". Um homem, que pediu para ser identificado como D.R., mostrou
concordar com Ernesto sobre a parcialidade da mídia tradicional, que, segundo
ele, deve-se principalmente à edição das imagens. D.R. disse que acredita ser
impossível alcançar a verdade quando algum fato é cortado. "O ao vivo é o
fato em si, é como se você estivesse vendo. A Mídia Ninja, por exemplo, mostra
a agressão policial. Ela mostra a verdade", disse, enquanto acenava para
um dos carros que buzinavam constantemente em apoio ao movimento.
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