Papel sem utilidade ao fim do dia, jornal impresso vai
perdendo seu espaço
João Carvalho Laborne Valle
Dizem por aí que os jornais impressos
estão com seus dias contados por conta da preferência do público pela internet.
O jornalismo digital entrou na vida das pessoas há pelo menos dez anos e a
partir começou a ganhar a confiança dos leitores pelo imediatismo que está
presente nas notícias e que não é possível no tradicional jornalismo impresso.
O jornalismo online surgiu para
trazer comodidade às pessoas. Apenas acessando a internet, os leitores
conseguem obter informações de todo o mundo, 24 horas por dia, sem sair do
conforto de suas casas ou sem ter que esperar para saber as notícias pelo
telejornal. Esse novo gênero jornalístico é atualizado constantemente, as
informações são em tempo real, os textos curtos e rápidos, e ele ainda fornece
links que possibilitam ao leitor buscar mais informações sobre determinada
notícia em apenas alguns cliques.
Mas a comunicação impressa é a
precursora do jornalismo. Sobreviveu à criação do rádio e até mesmo da TV, uma
batalha que muitos consideravam difícil, mas pode-se dizer que o jornalismo
digital surgiu como seu mais forte oponente. Não há dúvida que o jornal de
papel está ligado a uma série de pequenos prazeres para algumas pessoas, como,
por exemplo, tomar o café da manhã folheando lentamente as suas páginas,
selecionar as notícias que quer ler sem uma ordem de importância e ficar com os
dedos pretos devido à tinta.
Matérias mais
elaboradas e ricas em detalhes
Para o economista Eduardo Perez,
assinante do O Globo e do Valor Econômico, a leitura dos jornais
impressos é um ritual que pratica há quase quarenta anos e do qual não abre
mão. “Quem lê o jornal impresso não costuma ler apenas a capa, ao contrário do
que muitos fazem na versão eletrônica. Eu abro o O Globo, viro as páginas e entro em contato com todas as notícias
que sejam do meu interesse. Sem falar que os jornais em papel são muito mais
ricos em detalhes que os digitais. O leitor do papel tende a estar mais
informado do que o internauta”, afirma Eduardo.
As notícias publicadas em veículos
impressos podem mudar uma realidade. O jornal é um dos mais importantes
formadores de opinião e conquistou a fidelidade de muitos leitores. Sua
capacidade de interpretar as notícias e aprofundar os fatos é incrível. Contudo,
a influência da internet é indiscutível e por isso muitos deles estão migrando
para o ambiente virtual e colocando conteúdos exclusivos na rede. É impossível
reunir tudo o que os leitores querem saber em um jornal que deve ser entregue
às seis da manhã, por isso a instantaneidade de notícias é entregue de forma
online.
A internet é um dos frutos da
globalização. Todo mundo tem voz e espaço, como é o caso da Mídia Ninja, que
foi criada como alternativa à imprensa tradicional e ficou conhecida após as
manifestações de junho, com transmissões ao vivo, sem edição.
É muito fácil, rápido e barato
inserir ou modificar as notícias. Ainda assim, as imperfeições são muitas, a
veracidade é colocada em risco e a rapidez também traz a superficialidade,
aspecto preocupante no jornalismo. Os internautas são os responsáveis pela
audiência das páginas, por isso deve haver atenção com a apuração dos fatos,
além de uma periodicidade na atualização.
Para o jornalista Luiz Guilherme
Freitas, formado na PUC-Rio, o imediatismo das informações é o grande trunfo do
jornalismo virtual, já que as matérias são atualizadas o tempo todo e o leitor
fica sabendo das notícias quase em tempo real. Entretanto, Luiz também tem
críticas a fazer: “Eu tenho o hábito de acessar o Globo.com todos os dias, mas as matérias da capa sobre celebridades
são inacreditáveis. A gente fica sabendo que fulano saiu para almoçar e que
sicrano foi à academia para malhar. Esse espaço infinito da internet que dá
brecha para qualquer coisa virar notícia é o que eu não gosto no jornalismo
online”.
Parece que chegamos ao ápice da
comunicação, onde todos os meios já foram inventados: jornal impresso, rádio,
televisão e a internet. Com eles, o meio jornalístico sofreu as suas
transformações e teve sempre que se adaptar com a nova realidade. Hoje, o
grande dilema é: os jornais impressos sobreviverão aos ‘tsunamis’ de rapidez e
informação que a web proporciona? Respostas? São muitas. Conclusões? Quase não
existem.
Mídia
Ninja: jornalismo ou ativismo?
A Mídia Ninja é um grupo conhecido por
seu ativismo político e que se declara uma alternativa à imprensa tradicional. Durante
as manifestações de junho, quando milhões de pessoas foram protestar contra a
corrupção, os gastos excessivos do governo com a Copa do Mundo de 2014 e a
falta de investimentos na área da saúde e educação, o povo brasileiro viu na
Mídia Ninja o que a grande mídia muitas vezes não mostrava, seja com vídeos ou imagens, seja dando o ponto de
vista dos manifestantes.
Atualmente, entre outras coisas, a Mídia
Ninja está reportando os atos contra o governador do Rio de Janeiro, Sérgio
Cabral. Na frente do prédio onde mora o chefe de Estado carioca, no Leblon,
cerca de 40 pessoas acampam há quase dois meses pedindo o seu impeachment, no
movimento que ficou conhecido como “Ocupa Cabral”. Entrevistados sobre o
jornalismo praticado pelos ninjas, os manifestantes que estão no local
apresentaram opiniões parecidas, quase sempre saindo em sua defesa.
Para Roberto Freire, nome falso dado
por manifestante, a Mídia Ninja surgiu para preencher um espaço, pois o grupo recupera
a reportagem de rua e dá ênfase no que está acontecendo no momento, ao vivo. Ele
ainda defende que os ninjas denunciam principalmente certas violências que não
são objeto de cobertura das mídias tradicionais, que ficam reféns de interesses
políticos e não estão na rua como deveriam.
Já Tatiana, que não quis dar o
sobrenome, ressalta que a imprensa comum não soube ler rápido o que estava
acontecendo nas redes e nas ruas, enquanto a Mídia Ninja sempre esteve presente
nos protestos, transmitindo tudo ao vivo, fotografando e sempre tentando passar
o que realmente estava acontecendo. Ela ainda afirma que o Brasil tinha uma
demanda muito grande de uma cobertura independente naquele momento e que os
ninjas atenderam a isso.
Formado em jornalismo, Eugênio é o
único que faz uma crítica aos ninjas. Segundo ele, por mais que esteja usando
sua liberdade de expressão, não se pode dizer que essa mídia alternativa realize
um trabalho propriamente jornalístico, pois ela não dá conta de elementos como
a interpretação e a contextualização da notícia, ponto fundamental na
profissão.
Elogios ou críticas à parte, certo é
que a Mídia Ninja irá influenciar a mídia tradicional, que pode tentar
encontrar novas formas de se comunicar e abrir espaço para repórteres mais
flexíveis, próximos e abertos.
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