Como jornalistas, professores e estudantes veem a novidade
tecnológica inserida na profissão
Pedro Luís
O jornalismo online
é muito recente. Ainda causa dúvidas, críticas e previsões entre jornalistas,
leitores e pesquisadores. Há prós e contras em notícias veiculadas na rede. Mas
não há como fugir. Todas as grandes empresas jornalísticas hoje em dia têm sua
versão online. São diferentes das versões impressas em alguns aspectos, mas a
notícia é veiculada da mesma forma. Especialistas no assunto indagam questões
como a sustentação financeira, a qualidade na apuração das notícias da web e
seu imediatismo.
O imediatismo é o
diferencial do online. Com sua instantaneidade, pode-se ler uma notícia que
aconteceu há dez minutos, algo inviável no impresso. A professora Suely Caldas,
da PUC-Rio comentou sobre as diferenças entre as versões impressa e online e
como o imediatismo pode se tornar algo negativo. – Há
uma diferença. A mesma empresa, com o mesmo repórter faz matérias com conteúdos
diferentes para públicos diferentes. As versões online são uma forma de
sobrevivência dos jornais impressos. O online exige mais imediatismo, para um
público muito maior. O imediatismo é contra a qualidade. Você acaba veiculando
informação no seu estágio primário. Democratiza a informação, isso é bom, mas a
parte negativa é a credibilidade. O impresso tem mais credibilidade. Tem muita
mentira na internet.
O surgimento das redes de informação comunitárias
Assim como os jornais
impressos, as redes comunitárias de informação, como a Mídia Ninja, também
causam dúvidas quanto à forma que irão se sustentar no mercado, uma vez que o
mercado publicitário não vê interesse em investir nesse tipo de mercado. O jornalista do Globo, Giovanni Camargo, acha que o jornalismo está em
crise. "A versão impressa passa por um momento de crise
existencial. As empresas usam a parte digital como uma extensão. O online é
fundamental, um complemento. O problema dele é que o texto nem sempre é
elaborado com a qualidade necessária. Não há tanto rigor na apuração. O
imediatismo é negativo em alguns aspectos e positivos em outros. As redes
comunitárias só sobrevivem com apoio político. O consumo do jornalismo impresso
se reduziu de uma forma drástica nos últimos anos em razão ao consumo do
jornalismo digital. Isso é preocupante".
Leitores mais jovens,
que não têm o hábito de comprar jornal, acham que o conteúdo veiculado na
internet é satisfatório, não muito diferente do impresso e é mais democrático.
É o caso da estudante de jornalismo Eliz Nassif, de 25 anos. – O jornalismo online chega a pessoas que o
jornalismo impresso não consegue chegar. Esse é o grande diferencial. As
notícias são mais popularizadas e democratizadas quase com o mesmo conteúdo do
impresso.
Para o jornalista Carlos Castilho, do Observatório da
Imprensa, o jornalismo online enfrenta três desafios. São eles: diálogo com os
programadores, interatividade com o público e sustentabilidade financeira.
Nenhum deles é mais importante do que o outro.
A sobrevivência de um projeto de jornalismo online depende das
respostas que forem dadas aos três desafios, independente de ordem cronológica
ou de critério de relevância. – Estamos falando de uma
possível reconfiguração geral do modelo jornalístico vigente há
décadas. Hoje, os jornais impressos e a TV convencional estão perdendo público
e anunciantes, enquanto o jornalismo e o vídeo na Web crescem exponencialmente,
mas sem o correspondente aumento da receita publicitária. Esta é uma situação
insustentável tanto para a imprensa convencional como para o jornalismo na Web.
CHUVA DE NINJAS, DILÚVIO DO JORNALISMO
Um
dia de chuva entre uma semana ensolarada. É o dia que resolvo ir até a Avenida
Delfim Moreira, no Leblon, onde manifestantes do grupo Ocupa Cabral estão
acampados em frente ao prédio onde mora o governador Sérgio Cabral. Chove
muito. Mas não desisto. Afinal, Mídia Ninja é jornalismo ou não?
De
início, me senti preocupado com a possibilidade de não conseguir obter
informações sobre a Mídia Ninja, porque pensava que os manifestantes falariam
apenas deles próprios, os policiais não me responderiam e as pessoas nas ruas –
poucas devido à chuva – se esquivariam ou não saberiam do assunto. Com as
pessoas nas ruas, foi o que aconteceu. O que não se repetiu com os policiais e com
os manifestantes. “Mídia Ninja? É negócio de luta, não sei o que é não”, disse
o comerciante Gama, morador do Leblon.
Ao
tanto tentar, na borrasca, eis que consigo uma palavra de um policial novato,
mas com opinião formada sobre o assunto. Ele se mostra seguro ao perceber que a
entrevista não é para falar sobre o Ocupa Cabral e esboça uma avaliação,
aparentemente, unânime entre os policias. “Eu não conheço eles direito, mas
acredito que eles só mostram o lado dos manifestantes. Jornalismo tem que
mostrar os dois lados, senão acho que não é jornalismo”, comentou o policial
Tiago sobre a Mídia Ninja.
Ao
perceber que não vou conseguir muita coisa com as pessoas no aguaceiro das
ruas, sigo em direção ao acampamento dos manifestantes do Ocupa Cabral. Os
poucos que ali se encontravam me receberam muito bem e falaram bastante sobre a
Mídia Ninja, outras mídias alternativas e o jornalismo. Na carga d’água, cumpro
meu objetivo.
“Todo
jornalismo é parcial. Não existe jornalismo imparcial. O jornalismo tradicional
é parcial para o lado do governo e do dinheiro, o da Mídia Ninja é parcial para
o lado dos manifestantes. A Mídia Ninja e outras mídias alternativas como o
Vidigablog nos ajuda bastante. É ao vivo, é jornalismo. Estão mostrando o que
tá acontecendo de verdade e de graça”, falou Roberto, manifestante do Ocupa
Cabral.
“Não
se pode esquecer que a mídia independente não se resume à Mídia Ninja. Tem a
Pós-TV, Nova Democracia, Coletivo Mariachi, Norte 1. Eles estão postando vídeos
e fotos que a Globo nunca conseguiria. Tem que assistir às outras além da Mídia
Ninja”, disse Tiago, manifestante do Ocupa Cabral.
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