A era digital inicia um momento que agrega
críticas de todos os lados
Sâmela Martins
Qualidade ou eficácia? Ficar
sabendo primeiro ou ficar sabendo melhor? O jornalismo online divide opiniões.
A web é um banco de dados ilimitado, onde o leitor pode dar sua contribuição,
comentando em fóruns ou produzindo conteúdo e que permite integrar diferentes
informações através de permalink, uma
URL que direciona para um post específico.
A descrição deste perfeito espaço democrático de comunicação é modificada pelos
seus contrapontos.
A nossa sociedade, embalada por novidades
tecnológicas que não param de surgir, vive uma espécie de síndrome do
imediatismo. Relações, desejos e opiniões são cada vez mais instantâneos e
perecíveis. E com a informação não é diferente. Qualquer indivíduo pode
produzir conteúdo, expor sua opinião e indagar os meios de comunicação.
Novo jornalismo cria um novo usuário
O filósofo
francês Pierre Levy discorre sobre o que chama de “ciberdemocracia”, em livro
homônimo publicado em 2002. O termo se refere ao espaço cibernético que, de
acordo com o autor, permite um maior engajamento da população. Foi o que
presenciamos com as ações da Mídia Ninja que, através das redes sociais,
transmitiu o que acontecia nos protestos e espalhou informações que a mídia
tradicional não estava abordando. O professor e jornalista do O Globo, Chico Otávio, comentou o
assunto: “Quanto mais circulação de notícias,
mais democrático o ambiente fica. Então vejo com bons olhos. De certa forma, o
meio eficaz de democratização da informação. Deixa de ser algo nas mãos de
poucos provedores pra se tornar algo muito mais amplo, muito mais aberto. Nesse
sentido, essa revolução que a internet trouxe para o jornalismo foi positiva”.
A ânsia pela publicação interfere na qualidade
e é este o principal motivo de críticas. Em uma análise do portal do G1
(g1.com.br), feita durante um período de quatro horas, no dia 20 de setembro,
duas matérias do site foram publicadas com erro. Instantes depois, uma
atualização corrigia os erros e completava o texto com novas informações. “Muitas
vezes, esses sites precisam ser alimentados com muito materiais e os
responsáveis acabam caindo nas tentações do ‘copia e cola’ dos releases, da
nota mal acabada, sem revisão. Esses foram os efeitos colaterais dessa
revolução que precisam ser resolvidos”, explica Chico.
A crescente
influência deste ambiente ameaça o jornalismo impresso. Especialistas divergem
em relação ao futuro. De um lado, os que defendem que a internet vai acarretar
na “morte” do papel. Do outro, os que a veem como uma nova oportunidade para o
jornalismo tradicional. Na história, não seria a primeira vez que os jornais
teriam que se reinventar. Foi assim no surgimento do rádio, em 1920, e da televisão,
em 1950. As editorias online e a necessidade primordial de dar a matéria deixam
a desejar. “Eu acho que não supre. As matérias online
estão sempre se atualizando, o tempo todo, logo elas não conseguem dar a
profundidade necessária para o leitor compreender o fato por completo”, diz
Rafael Drummond de 21 anos, aluno de Jornalismo da PUC-RIO.
Outro ponto a favor do impresso é sua
apresentação, com começo e fim, temas separados e uma regra pré-estabelecida. O
espaço do online é aberto, o que cria uma necessidade de ser alimentado a todo
instante, com novos links e atualizações. “A diferença é que, no impresso, ao
lado da reportagem/matéria, se tem uma análise. Uma opinião, um gráfico, uma
retrospectiva. Tudo acoplado no mesmo espaço. No online, o importante é dar a
notícia, e não tratá-la com profundidade”, explica o estudante.
Garantir a vida do impresso, ou a
mudança do online é uma tarefa complicada dentro do cenário efêmero em que
vivemos. Mas é fato de que a existência de um não depende do sumiço do outro. “O melhor dos mundos, para mim, seria
uma separação. Eu gostaria muito de conviver, coisa que não acontece hoje - eu
sou repórter de rua de uma redação tradicional -, com um repórter online”, admite
o jornalista Chico. O caminho é buscar um equilíbrio entre os meios, no qual o
principal ator desta relação seja sempre prioridade: a informação.
Os
Ninjas: técnica versus transparência
A Mídia Ninja (sigla para Narrativas
Independentes, Jornalismo e Ação) está em foco. O grupo, principal agente na
cobertura das manifestações que tomaram conta do Brasil em 2013, reviveu uma
das grandes indagações da comunicação: afinal, o que é jornalismo?
Um grupo de jovens. Anseio por
mudanças. Celulares com câmera. Redes sociais. Assim, os ninjas fizeram
história. Sem amarras publicitárias ou acordos duvidosos, eles foram pras ruas.
Filmaram e divulgaram abusos policiais, ataques de vandalismos e mostraram o
lado “escuro” da revolta que a imprensa insistia em não publicar.
“Eles tem mostrado que o a PM faz com a
gente é errado. Que não somos nós que começamos a confusão. Como aquele dia que
um policial prendeu um ‘mídia ninja’ por nada. O cara só estava filmando. Do
nada um cara a paisana deu voz de prisão, por nada. Por isso que eu apoio a
Mídia Ninja e quero que ela continue”, disse uma manifestante do movimento
“Ocupa Cabral” que preferiu não se identificar.
Sem nenhuma linha editorial determinada, profissionais
da área se perguntam se o que eles fazem é, de fato, jornalismo. Nos
dicionários da língua portuguesa, a definição para o termo está sempre
associada ao domínio de uma técnica de escrita, apuração e divulgação que a
maioria dos colaboradores do grupo alternativo não detém. Em contrapartida,
eles estão onde a notícia está. Informam, divulgam, questionam. Jornalismo ou
colaboração?
“Eles vem pras ‘ocupas’, vão pras
ruas, vão pra congresso pra poder gravar. Pra quem não sabe o que tá acontecendo, ver que não somos esses
vândalos que a mídia bota na televisão”, garante o manifestante João Montes.
De um lado, agentes tradicionais da
grande mídia que dominam a técnica jornalística e a usam, muitas vezes, de
maneira tendenciosa, tratando informação como mercadoria. Seguem a linha
editorial de quem os financia. Do outro, um viés alternativo, que não está
livre da parcialidade, mas abrange uma perspectiva diferente.
Não há dúvida de que o confronto entre
os meios é o melhor instrumento para fornecer a população uma visão com vários
lados e diferentes abordagens do mesmo fato. Com a exposição dos “dois lados da
moeda” – cada qual a sua maneira – é possível abrir espaço para discussões,
provocar confrontos, levantar questionamentos. É essa a única premissa
jornalística que não pode ser esquecida.
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