terça-feira, 22 de outubro de 2013

As divergências no novo momento da comunicação

A era digital inicia um momento que agrega críticas de todos os lados

Sâmela Martins

Qualidade ou eficácia? Ficar sabendo primeiro ou ficar sabendo melhor? O jornalismo online divide opiniões. A web é um banco de dados ilimitado, onde o leitor pode dar sua contribuição, comentando em fóruns ou produzindo conteúdo e que permite integrar diferentes informações através de permalink, uma URL que direciona para um post específico. A descrição deste perfeito espaço democrático de comunicação é modificada pelos seus contrapontos.
 A nossa sociedade, embalada por novidades tecnológicas que não param de surgir, vive uma espécie de síndrome do imediatismo. Relações, desejos e opiniões são cada vez mais instantâneos e perecíveis. E com a informação não é diferente. Qualquer indivíduo pode produzir conteúdo, expor sua opinião e indagar os meios de comunicação.

Novo jornalismo cria um novo usuário
O filósofo francês Pierre Levy discorre sobre o que chama de “ciberdemocracia”, em livro homônimo publicado em 2002. O termo se refere ao espaço cibernético que, de acordo com o autor, permite um maior engajamento da população. Foi o que presenciamos com as ações da Mídia Ninja que, através das redes sociais, transmitiu o que acontecia nos protestos e espalhou informações que a mídia tradicional não estava abordando. O professor e jornalista do O Globo, Chico Otávio, comentou o assunto:  “Quanto mais circulação de notícias, mais democrático o ambiente fica. Então vejo com bons olhos. De certa forma, o meio eficaz de democratização da informação. Deixa de ser algo nas mãos de poucos provedores pra se tornar algo muito mais amplo, muito mais aberto. Nesse sentido, essa revolução que a internet trouxe para o jornalismo foi positiva”.

 A ânsia pela publicação interfere na qualidade e é este o principal motivo de críticas. Em uma análise do portal do G1 (g1.com.br), feita durante um período de quatro horas, no dia 20 de setembro, duas matérias do site foram publicadas com erro. Instantes depois, uma atualização corrigia os erros e completava o texto com novas informações. “Muitas vezes, esses sites precisam ser alimentados com muito materiais e os responsáveis acabam caindo nas tentações do ‘copia e cola’ dos releases, da nota mal acabada, sem revisão. Esses foram os efeitos colaterais dessa revolução que precisam ser resolvidos”, explica Chico.

A crescente influência deste ambiente ameaça o jornalismo impresso. Especialistas divergem em relação ao futuro. De um lado, os que defendem que a internet vai acarretar na “morte” do papel. Do outro, os que a veem como uma nova oportunidade para o jornalismo tradicional. Na história, não seria a primeira vez que os jornais teriam que se reinventar. Foi assim no surgimento do rádio, em 1920, e da televisão, em 1950. As editorias online e a necessidade primordial de dar a matéria deixam a desejar. “Eu acho que não supre. As matérias online estão sempre se atualizando, o tempo todo, logo elas não conseguem dar a profundidade necessária para o leitor compreender o fato por completo”, diz Rafael Drummond de 21 anos, aluno de Jornalismo da PUC-RIO.

Outro ponto a favor do impresso é sua apresentação, com começo e fim, temas separados e uma regra pré-estabelecida. O espaço do online é aberto, o que cria uma necessidade de ser alimentado a todo instante, com novos links e atualizações. “A diferença é que, no impresso, ao lado da reportagem/matéria, se tem uma análise. Uma opinião, um gráfico, uma retrospectiva. Tudo acoplado no mesmo espaço. No online, o importante é dar a notícia, e não tratá-la com profundidade”, explica o estudante.
   
Garantir a vida do impresso, ou a mudança do online é uma tarefa complicada dentro do cenário efêmero em que vivemos. Mas é fato de que a existência de um não depende do sumiço do outro.  “O melhor dos mundos, para mim, seria uma separação. Eu gostaria muito de conviver, coisa que não acontece hoje - eu sou repórter de rua de uma redação tradicional -, com um repórter online”, admite o jornalista Chico. O caminho é  buscar um equilíbrio entre os meios, no qual o principal ator desta relação seja sempre prioridade: a informação.

   

Os Ninjas: técnica versus transparência

A Mídia Ninja (sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) está em foco. O grupo, principal agente na cobertura das manifestações que tomaram conta do Brasil em 2013, reviveu uma das grandes indagações da comunicação: afinal, o que é jornalismo?
Um grupo de jovens. Anseio por mudanças. Celulares com câmera. Redes sociais. Assim, os ninjas fizeram história. Sem amarras publicitárias ou acordos duvidosos, eles foram pras ruas. Filmaram e divulgaram abusos policiais, ataques de vandalismos e mostraram o lado “escuro” da revolta que a imprensa insistia em não publicar.

“Eles tem mostrado que o a PM faz com a gente é errado. Que não somos nós que começamos a confusão. Como aquele dia que um policial prendeu um ‘mídia ninja’ por nada. O cara só estava filmando. Do nada um cara a paisana deu voz de prisão, por nada. Por isso que eu apoio a Mídia Ninja e quero que ela continue”, disse uma manifestante do movimento “Ocupa Cabral” que preferiu não se identificar.
 Sem nenhuma linha editorial determinada, profissionais da área se perguntam se o que eles fazem é, de fato, jornalismo. Nos dicionários da língua portuguesa, a definição para o termo está sempre associada ao domínio de uma técnica de escrita, apuração e divulgação que a maioria dos colaboradores do grupo alternativo não detém. Em contrapartida, eles estão onde a notícia está. Informam, divulgam, questionam. Jornalismo ou colaboração?

“Eles vem pras ‘ocupas’, vão pras ruas, vão pra congresso pra poder gravar. Pra quem não sabe o que tá acontecendo, ver que não somos esses vândalos que a mídia bota na televisão”, garante o manifestante João Montes.

De um lado, agentes tradicionais da grande mídia que dominam a técnica jornalística e a usam, muitas vezes, de maneira tendenciosa, tratando informação como mercadoria. Seguem a linha editorial de quem os financia. Do outro, um viés alternativo, que não está livre da parcialidade, mas abrange uma perspectiva diferente.

Não há dúvida de que o confronto entre os meios é o melhor instrumento para fornecer a população uma visão com vários lados e diferentes abordagens do mesmo fato. Com a exposição dos “dois lados da moeda” – cada qual a sua maneira – é possível abrir espaço para discussões, provocar confrontos, levantar questionamentos. É essa a única premissa jornalística que não pode ser esquecida.



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