quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Jornalismo online ganha força e disputa com mídias tradicionais

Conteúdo na web se expande entre a mídia tradicional e alternativa e gera debate

Tiago Coelho

O jornalismo online e em tempo real já é rotina nas redações há muito tempo e o que se debate agora é lugar que a mídia impressa terá num mundo cada vez mais digital. E se antes a renda publicitária era o que faltava para o desenvolvimento da produção de notícias na rede, não falta mais. Segundo relatório do Inter-Meios, pela primeira vez, os investimentos publicitários na internet ultrapassaram o montante veiculado em revistas.    
Em 1995 o Jornal do Brasil foi pioneiro em lançar uma versão na web. Dezoito anos depois, mostrando a força da mídia online, o O Globo lançou uma publicação vespertina para tablets e celulares, O Globo a Mais, se espalhando por diversas plataformas e acirrando a rivalidade com os jornais impressos.
Para jornalista, web representa uma revolução
As transformações e inovações que a internet trouxe para a profissão são consideradas por alguns uma mudança profunda no jornalismo. O acadêmico e jornalista Rosental Calmon Alves acredita no papel revolucionário da internet e vê com entusiasmo as novidades e possibilidades que ela oferece.
– Estamos entrando em um período de transformações em grandes dimensões e saindo do período industrial para uma era de rede.
Hoje professor da Universidade do Texas, Rosental observa que nem mesmo as mídias eletrônicas, como o rádio e TV, provocaram transformações tão significativas.
      – Rádio, TV e jornal foram revoluções pequenas. O sistema de redes é uma revolução com r maiúsculo. Pela primeira vez o receptor é também emissor e isso é uma mudança fundamental.
Com passagens pelas redações do Jornal do Brasil e revista Veja, Rosental, entretanto, pondera que as mídias tradicionais e a web podem coexistir.
– Para a travessia dos dois mundos será importante ter espírito inovador.
Este fator  inovador apontado por Antônio Calmon Rosental entrou no centro dos debates midiáticos quando neste ano o coletivo de jornalismo Mídia Ninja passou a cobrir as manifestações que tomaram as ruas do país.
Com câmeras de celulares, o grupo faz suas transmissões ao vivo por todo o país via streaming. A cobertura online dos “ninjas” provocou discussões. Muitos profissionais, veículos e usuários da rede questionaram o trabalho do grupo, se perguntando se o que eles fazem é mesmo jornalismo. Para Rosental o trabalho feito pela mídia Ninja explica a forma como a mediação se estabelece hoje.
– Saímos de um estado midiacêntrico para um estado eucêntrico, onde o espectador tem mais controle sobre o conteúdo.
 Fazer jornalismo na web pode ser fácil e barato e por isso multiplicar os grupos de mídias independentes. Mas a internet ainda tem a credibilidade e capacidade de oferecer um conteúdo qualificado questionada pelos usuários.
Pedro Guimarães, aluno do quinto período de jornalismo da PUC-Rio, acredita que a web tem espaço para um conteúdo de qualidade, mas na hora de escolher entre o impresso e o online para se informar melhor ele prefere a primeira opção.
 – Leio os dois. Mas busco no impresso sempre a melhor apuração, que muitas vezes não vejo na internet – compara o estudante que é estagiário do Portal PUC-Rio.
Enquanto o impresso foca no conteúdo, a web aposta na rapidez. Na edição impressa d’ O Globo de 26 de setembro, a manchete é sobre as restrições do governo para a privatização dos aeroportos, que foi assunto do dia anterior, já a manchete da versão online do mesmo dia era sobre a aprovação de novas legendas pelo TSE, que foi tema do mesmo dia.
No entanto, cada vez mais a internet vem buscando aperfeiçoar seu conteúdo. Rosental aponta a Agência Pública como exemplo de bom jornalismo. A agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos financiada por apoiadores como a Ford Foundation ou por seus usuários através do sistema de crowdfunding.
Para Rosental, a disputa entre os veículos tradicionais e a internet e a chamada mídia independente  é saudável e produtivo.

– Nada vai ajudar mais o jornalismo profissional do que o jornalismo alternativo.


Mídia Ninja tem apoio de manifestantes

No canteiro central da Avenida Delfim Moreira, no Leblon, próximo ao posto 12, um grupo de manifestantes vive acampado em barracas desde o início das manifestações em junho. O “Ocupa Cabral” fica em frente à Rua Aristides Espindola, onde mora o governador Sérgio Cabral.
Cartazes, placas e algumas intervenções urbanas deixam claras as reivindicações do grupo. Em uma placa de madeira estava a principal delas: “Quem é fora Cabral, buzina!”. Alguns carros realmente buzinaram. Outros veículos gritavam: “Vai trabalhar!”. No chão, desenhado com tinta branca, símbolos do anarquismo e frases de protesto. Algumas mensagens perguntavam sobre o paradeiro de Amarildo, morador da Rocinha desaparecido desde o dia 14 de julho, depois de ser levado por policiais militares até a UPP da Rocinha.
Há cinco metros de distância do acampamento, Pablo Jacob, fotógrafo da Infoglobo fazia registros do local. “Falar com eles é difícil. Ainda mais com isto aqui” – disse o repórter fotográfico mostrando o crachá com seu nome, foto e a empresa em que trabalha.
Veterano nas coberturas das manifestações, Jacob considera positivo o trabalho da mídia Ninja. “A tecnologia está aí e as pessoas tem que aproveitar mesmo. As pessoas antes ficavam reféns da mídia tradicional e agora tem a possibilidade de se manifestar.” Apesar de achar hostil a abordagem de alguns manifestantes, o repórter fotográfico aprova a ocupação: “A luta é legal. Se o país todo se engajasse, seria um país mais sério.”
Um grupo de quatro pessoas se aproximou de Pablo. Entre eles, Luiza Dreyer, uma jovem com os cabelos pintados de roxo e um sorriso amigável. Ela pediu ao fotógrafo que não fizesse imagens do rosto das pessoas que estavam ali. O fotógrafo explicou que esta não era a sua intenção. Um rapaz autodenominado Fox, vestido com uma camisa azul e um pano preto enrolado na cabeça, pediu para ver as fotos feitas por Pablo, que se recusou. Diante da negativa, uma discussão se estabeleceu. Fox disse que Pablo trabalhava para uma mídia burguesa e o fotógrafo se defendeu dizendo que estava apenas fazendo seu trabalho.
Luiza, ex-estudante de publicidade da PUC-Rio, tem uma postura mais disponível em relação à imprensa, apesar de questionar o trabalho dos veículos tradicionais e dar prioridade à mídia independente. “A mídia Ninja tem ajudado muito a gente, pois a mídia tradicional tem decepcionado. Mas trato a mídia Ninja como toda mídia alternativa que tem nos apoiado, como um blogueiro do Vidigal. Mas sou aberta ao diálogo com os veículos de comunicação. Sou radical, mas aberta ao diálogo sempre” – disse Luiza.

Avanço do jornalismo online traz divergências


Com novas ferramentas, veículos tradicionais tentam se adaptar ao novo momento


Tiago Roedel  

                O jornalismo tradicional vem mudando ao longo dos anos. Recentemente, a chegada da internet acelerou o processo de transformações. Hoje é impensável para um meio informativo não ter um sítio dentro da rede. Além disso, as empresas ainda tentam se adaptar a ferramentas do jornalismo online. Esta evolução traz debates para jornalistas, usuários e estudiosos.   
            A velocidade de propagação de informações é uma das maiores características deste tipo de jornalismo. Para o jornalista formado pela UFRJ, Bruno Barbosa, até a hierarquia de notícias está mudando com isto.
            -  Na web, o critério do tempo se sobrepõem ao da importância da notícia. A manchete do site é algo que aconteceu recentemente, não o que ocorreu de mais relevante durante o dia. E isso abre brechas para que jornalistas não apurem direito e só joguem a informação para garantir o “furo” – comentou o jornalista que já passou por redações de jornais de bairro.
            Diante do tempo real da internet, o jornalismo impresso tenta trazer algo diferente às folhas do jornal do dia seguinte. A notícia do “não” do técnico Abel Braga, nesta semana, à proposta de assumir a equipe de futebol do Flamengo, no jornal esportivoLance, é um exemplo da cautela adotada por empresas de periódicos. A veiculação da notícia, por toda a internet, feita no final da tarde e a repercussão seguiu até o fim do dia. Embora o jornal tenha estampado na manchete a informação, trouxe declarações do treinador explicando a recusa. Um fato que não havia sido tratado nem pelo próprio site do jornal.
            A adaptação não é só dos impressos. As emissoras de televisão vêm utilizando cada vez mais imagens feitas por celulares e câmeras pequenas. Até cidadãos contribuem. No Brasil, isso se deve muito ao fenômeno dos últimos meses da Mídia Ninja.  

Apesar da forte interação, empresas diminuem      

            Ana de Oliveira, usuária que passa cinco horas por dia na internet e que já mandou imagens para televisão, prefere acompanhar as notícias em sites devido à facilidade do acesso. 
            - Prefiro ler na internet por que é mais rápido e mais prático. Clico em uma notícia, leio e em seguida já estou em outra só com o mouse. Não preciso virar a página.  Além disso, é muito mais fácil encontrar um contraponto para as matérias que leio na própria internet – disse a jovem de 22 anos. 
            Para o historiador Daniel Pinha, os comentários das notícias nos sites e nas redes sociais ajudam a ter uma real noção da reação das pessoas e também aponta para uma real troca entre leitor e jornalista que fazem parte do jogo democrático. 

            - Em uma sociedade com acesso a diversas fontes de informação e com um senso crítico cada vez maior, a possibilidade de interação com o produtor de notícias é grande e importante para ambos  – analisa o professor da PUC-Rio. 
            Embora a interação e a possibilidade de qualquer um poder noticiar através de blogs e mídias sociais, Bruno Barbosa alerta para um caminho contrário quanto aos da cobertura jornalística.
            - Quem mais sofreu com o avanço do jornalismo digital foi a pequena imprensa. Não tem mais tempo para viagens e reportagens especiais. Hoje, a maioria dos profissionais fica trancado nos escritórios – afirma Barbosa.

                                  Jornalismo ninja traz debates na cidade

            No último dia 16 de agosto, Rafael Silva, 23 anos, estava com seu celular e sua câmera transmitindo um protesto que ocorria na Rua Pinheiro Machado, próximo do Palácio Guanabara. Ele filmava, ao vivo, a atuação dos manifestantes. O jovem é do grupo de Narrativas Independentes Jornalismo e Ação, a Mídia Ninja.
            Para ele, o grupo que reúne diversos voluntários é revolucionário no sentido de fazer jornalismo. Rafael se voluntariou para poder exercer a profissão de repórter.
            - O meu desejo sempre foi praticar o jornalismo contando a verdade sem interesses de anunciantes. E é isso o que eu faço, mostro sem cortes e edição aquilo que outros não mostram – disse o estudante de jornalismo do 3° período da UFF.
            O fato de não receber pelo trabalho e a militância da Mídia Ninja não incomodam o repórter. 
            - Faço com orgulho o meu trabalho até altas horas e no momento quero fazer jornalismo, não ganhar dinheiro. O posicionamento político não me incomoda. É melhor ter uma posição do que fingir que é neutro – comentou Silva
            Em outro epicentro de protesto na cidade do Rio de Janeiro, onde moradores convivem há dois meses com o movimento “Ocupa Cabral”, Vera Branco, de 64 anos, comenta que a Mídia Ninja não pode se alinhar com esse tipo de protesto.
            - Sou a favor dessa insatisfação com os governos, só que a Mídia Ninja está apoiando algumas coisas erradas. Isso aqui já virou uma favelinha. Tem que saber dosar – disse a moradora
            Gustavo Ferreira, 35 anos, discorda do pensamento do grupo independente. Para ele, a Mídia Ninja não promove jornalismo e sim um idealismo.
            - Eles manipulam tanto quanto outra mídia. Escolher uma imagem já é manipulação. Alimentar anarquismo não é jornalismo, é idealismo. Só não enxerga isso, quem não quer  – Comentou.
            Para o guarda de trânsito, que fiscaliza a rua próxima do “Ocupa Cabral”, a atuação da Mídia Ninja deve ser valorizada tanto quanto outros grupos de comunicação.
            - Saí material dali que pode ser que resolva algumas coisas. A tendência é isso acontecer e isso é bom. Através da Mídia Ninja, a população se revolta contra os políticos – disse o guarda, que não quis se identificar.

A crise do jornalismo impresso e o que a internet tem a ver com isso

Veículos de comunicação criam cada vez mais artifícios para se aproximar do público online
Amanda Rocha

          Em terra de papel, quem tem smartphone é rei. O mundo está sendo engolido pelas novas tecnologias e o jornalismo impresso sofre ameaças. Todos os dias, novos portais de notícia alternativos são criados. A Mídia Ninja, expoente da mídia alternativa no país, se tornou preferência de muitos quando o assunto é a cobertura dos protestos que ocorrem desde junho no Brasil. Com um celular na mão, mostram ao vivo o que acontece nas ruas. É um novo jeito de se documentar que vem conquistando leitores. "Muitas vezes, o conteúdo da mídia alternativa não vem filtrado e editado. É muito óbvio para nós, mas para um editor é difícil entender que informação não é apenas o editado", explica Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism in Americas, programa de extensão e capacitação de profissional para jornalistas na América Latina e no Caribe. Não só os leitores migram para canais online, como os anunciantes também, já que podem comprar espaços bem mais baratos.
          Foi assim que, em março deste ano, a The New York Times Company, responsável por um dos mais importantes jornais do mundo, demitiu 100 pessoas, além de reduzir o salário dos funcionários. No Brasil, a Editora Abril comunicou o fechamento de quatro revistas e a dispensa de 150 profissionais. O Jornal do Brasil, consagrado no país, anunciou o fim de sua versão impressa em 2010, carregando agora o slogan “O primeiro jornal 100% online do país”.

Mídias tradicionais precisam se adaptar às mudanças

          Rosental afirma ainda que, apesar de ser um período de crise, é muito rico para quem se arriscar a tentar o novo. "As mudanças implicam em períodos de caos e incertezas, mas também nos oferecem oportunidades. É nesse momento em que devemos buscá-las", ele explica.
          E buscam. O jornal O Globo criou, em 2012, o seu caderno "Globo a Mais". É um espaço feito especialmente para os iPads. Lá, o leitor mantém uma experiência multimídia com a notícia, algo que não é possível com o impresso. "Aproveitamos esse canal para que o leitor, de fato, viva a notícia. Por exemplo: se ele está lendo a crítica de um filme ou conhecendo uma banda nova no caderno de cultura, nós sempre colocamos um vídeo do assunto no final, para que ele possa tirar suas próprias conclusões", diz Adriana Barsotti, ex-editora do Globo a Mais.
          É essa a interação procurada pelos leitores. Eles querem ler, mas também ouvir. Ouvir, mas também opinar. Se for o caso, mudar o rumo de uma notícia por conta das opiniões. Foi o que aconteceu com a revista Capricho. Em julho de 2012, ao publicar o depoimento de uma menina que tinha sua primeira relação sexual mesmo sem estar com vontade, a redação recebeu milhares de críticas em todas as redes sociais e na própria caixa de comentários da matéria. Os leitores reclamavam, acusando a revista de incitar comportamentos parecidos em outras adolescentes, público-alvo da Capricho. A repercussão foi tanta que eles precisaram se retratar publicamente. “Essa é a maior graça das publicações online. Você não precisa mandar uma carta, que passa por um filtro, para talvez ser publicada, e para que, talvez, alguém leia. Na internet, o público tem voz de verdade. Se incomodou, o veículo tem que se explicar”, opina Ana Luiza Cardoso, estudante de jornalismo.

Mídia Ninja na visão dos manifestantes


          13h54, Avenida Delfim Moreira com Rua Aristides Espínola. De um lado, a praia do Leblon recebe cariocas e turistas, ostentando um termômetro que marca 35 graus. Do outro, no canteiro que divide os sentidos da rua, barracas de camping enfeitam a paisagem, fazendo uma grande roda em volta de uma lona que se tornou a "sala comum" do acampamento. Lá dentro, em torno de oito pessoas juntam dinheiro para comprar um garrafão de água - o primeiro líquido do dia a descer aquelas gargantas. "Aqui temos dias bons e dias ruins. Hoje é um dos dias ruins", explica Luiza Dreyer, estudante e porta-voz do Movimento Ocupa Cabral, que luta, entre outras causas, pelo impeachment do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Os ocupantes formam um grupo bastante heterogêneo de aproximadamente 40 pessoas. "Alguns ficam initerruptamente, outros vêm apenas para dormir", ela conta. De noite, o movimento se acentua. Mesmo com uma chuva torrencial, que os obriga a levantar a lona da "sala comum" para escoar a água de tempos em tempos, eles se preparam para fazer uma palestra.
          O convidado é Pedro Noel, ativista formado em Filosofia na Espanha. No primeiro slide da apresentação, que é transmitida online através de um celular, Pedro compara as mídias tradicionais com os movimentos sociais do passado. "A estrutura engessada e centralizada, com base piramidal, imita os antigos movimentos sociais. Atualmente, não há mais um líder nem uma hierarquia da notícia, assim como os protestos”, explica. Para ele, a mídia alternativa já se solidificou. “A Mídia Ninja se firmou por fazer um jornalismo sério. Não há boatos. Tudo é apurado e pesquisado” ele diz, acreditando que o fato abre precedente para que diversos outros coletivos sigam o mesmo caminho. Do outro lado da sala, um homem com olhos de aproximadamente 40 anos (isso era tudo que podia ser visto do mascarado, em razão dos panos enrolados na cabeça), discorda. “O caminho para a Mídia Ninja se tornar grande é muito longo. Tão longo que vão aparecer diversos outros métodos de se fazer notícia por essa estrada. O importante é saber que hoje isso está nas mãos do povo”, diz ele, que não quis se identificar por “ter o direito de preservar sua imagem” (no mesmo dia, foi aprovado na Alerj o projeto de lei que proíbe o uso de máscaras em atos públicos).
          Enquanto a palestra continua, o “Punk”, como foi apelidado pelos companheiros, pede para que lhe tragam uma laranja. Punk veste uma máscara dura de ferro com feições de caveira para cobrir seu nariz e boca e empunha uma faca – de plástico, como as de festa de aniversário infantil – para descascar a fruta. “Tá filmando isso aí, né? É bom que a Globo veja”, ele grita.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cobrança por acesso online é tendência em jornais do mundo

Atualmente os jornais tem paywall, as famosas páginas pagas, na internet, igualando-se ao impresso e mostrando o futuro dos sites de notícia

                                                         Thaís Carvalho

     Cada vez mais tem aumentado o número dos jornais online que cobram pelos acessos. A questão é saber como cobrar pelo conteúdo disponibilizado na internet e até que ponto as pessoas vão continuar lendo se o mesmo for numa versão paywall.
A versão online do O Globo lançou no dia 16 de setembro o sistema de cobrança pelas matérias. Qualquer pessoa pode acessar, gratuitamente, 20 links de reportagens e no 20º acesso o site solicita o envio de alguns dados para cadastro. Depois disso o usuário ganha mais dez visitas, mas na 30º notícia o acesso é bloqueado e é enviado uma mensagem com opções de assinatura. No primeiro mês, a promoção disponibiliza a entrada pelo valor de R$1,90. Esse modelo é parecido com o que foi adotado pelos jornais Folha de São Paulo e Zero Hora.

     A estudante de publicidade Bruna Sousa, 21, diz que pagaria por uma noticia caso fosse algo de muito interesse. "Hoje em dia as pessoas compartilham tudo que gostam nas redes sociais. Isso poderia acontecer com alguma matéria que quisesse muito ler e não quisesse pagar”, comenta.


     O professor de comunicação da PUC-Rio, Sérgio Bonato, 55, afirmou que prefere muito mais ler notícias na internet do que no papel. “Gosto de buscar reportagens em jornais online por causa da interatividade e também do conteúdo que é mais aprofundado na internet do que no papel”, comenta. Em uma matéria impressa o jornalista tem um limite exato de linhas para escrever o que impossibilita um melhor aprimoramento do assunto em questão, diferentemente do online.

     No impresso é muito mais comum pagar para se ter o jornal, por mais que existam versões gratuitas, muitos preferem comprar os grandes jornais pelo preço que já estão acostumados. O online é mais prático, porém o impresso é mais tradicional.

     O sociólogo Pablo Nunes, 25, trabalha como analista de discurso mediático e frequentemente tem de ler reportagens online. “Pelo meu trabalho, eu pago para ler as notícias. Mas, se fosse somente para a minha informação, não pagaria”, afirmou. O sociólogo também acrescentou que a diversidade de mídias, até as independentes, faz com que pagar por uma matéria da internet seja desnecessário.




Jornalismo online: notícia em primeira mão para uma sociedade muito moderna

Leitor opta cada vez mais pela interatividade e pela rapidez, características do jornalismo online

Raquel Ribeiro


Produzir jornalismo online vai muito além de disponibilizar as versões de jornais impressos na web. É preciso ter cuidado para que ele não se confunda com os outros tipos de jornalismo que sempre foram tão claros na cabeça do leitor. A grande diferença entre os dois está em seu conteúdo. Mas o papel do jornalismo continua sendo o mesmo: informar ao público. A maneira que vamos apresentar a notícia aos leitores vai variar de veículo para veículo. Cabe ao leitor decidir qual o caminho que ele vai escolher para chegar até a informação. Isso passa principalmente pelo gosto pessoal de cada um.
 O jornalismo na web exige gráficos, animações, elementos interativos que jamais serão vistos em uma versão impressa. Nesse caso, há uma convergência de mídias: texto, som e imagem em um só lugar. É característica do online a interatividade. Através dela o leitor consegue criticar, elogiar ou apenas fazer um comentário com muito mais rapidez do que se ele escrever uma “carta” para o jornal impresso. Essa troca acaba aproximando o leitor da notícia e fazendo com que ele se torne parte dela. Por isso, copiar e colar um texto que foi escrito para uma versão impressa não é considerado um tipo de jornalismo online. A web vai muito além disso.

O JORNALISMO ONLINE E SEUS DOIS LADOS

Uma matéria consegue ser aprofundada em qualquer tipo de mídia. No jornalismo online não é diferente. A única questão é que quem acessa a web buscando notícia, na maioria das vezes, quer ter uma visão geral dos fatos que vão influenciar a sua vida nas próximas 24 horas. Quando o leitor abre a página da internet ele consegue fazer um panorama do que está acontecendo naquele dia e descartar o que não lhe interessa com uma facilidade muito maior do que se ele estivesse com as folhas de jornal abertas em seu sofá. Jornalismo na web é velocidade, objetividade, é informação em primeira mão.
As matérias produzidas no online entram e saem de cena com muita rapidez. É preciso que o leitor tenha consciência de que o que está sendo escrito na página da internet tem uma credibilidade muito menor do que a informação que chegará até a sua casa no dia seguinte. Isso porque houve um tempo muito maior para que a notícia fosse apurada. Em alguns casos, na luta pela agilidade da informação, os erros de português se tornam até frequentes.   
A estudante de jornalismo, Carolina Pereira, garante que a mídia online supre suas necessidades diárias pela informação com muito mais eficácia do que o jornal impresso.
“Acordo muito cedo para chegar até a faculdade e não tenho tempo de parar para ler o jornal impresso. Com o uso do Iphone eu consigo ter a informação do meu lado, o tempo todo. Acredito que a Globo.com me ofereça a quantidade necessária de informações para o meu dia a dia. Acho que a tendência é que as pessoas utilizem cada vez mais esse tipo de mídia, mesmo com todos os erros de apuração que ela pode nos oferecer”, disse.

A internet fez com que outros tipo de mídias surgissem. A Mídia Ninja nos foi revelada pelas manifestações que aconteceram em junho e o seu papel está sendo muito discutida por jornalistas (leia mais na coordenada). Mas é indiscutível que é mais uma maneira de informar ao público o que está acontecendo.

O papel do jornalismo na Revolução Digital
     As manifestações de junho revelaram ao País, a Mídia Ninja , jovens que atuam, através de smartphones, na divulgação de informações que muitas vezes não é passada pela grande mídia. 
     Durante todos os dias de protesto, a mídia Ninja conseguiu se aproximar dos jovens que lutavam por seus direitos e dos policiais que tentavam reprimir esses mesmos jovens. Tudo isso foi à tona nas redes sociais, a população pela primeira vez conseguiu ter acesso ao real, ao vídeo sem cortes, sem nenhum tipo de edição. Os fatos que sempre foram ocultos e que hoje são evidenciados por essa nova mídia fizeram com que as pessoas parassem para refletir e discutissem sobre o verdadeiro papel do jornalismo. A grande dúvida é se a edição de imagens interfere positiva ou negativamente na reprodução do conteúdo.
      Os integrantes da Mídia Ninja acreditam que há uma crise na imprensa clássica e esse novo tipo de jornalismo pode estar complementando a limitação da cobertura dos grandes jornais. Para eles, a Revolução digital possibilitou que a cobertura de fatos possa ser feita por qualquer pessoa que tiver um aparelho que consiga fazer a gravação de um caso, ou seja, o jornalismo é muito mais acessível do que as grandes redações parecem ser.
     A estudante de jornalismo, Gisele Martins, está acampada no movimento “Ocupa Cabral” e disse que reconhece o valor da Mídia Ninja, apesar de achar que o verdadeiro jornalismo deve ser imparcial.  
    “Acredito que a Mídia Ninja tem dois lados. Por um lado, gosto do trabalho, pois eles conseguem mostrar tudo aquilo que a TV não mostra. Por outro, eles se preocupam muito em mostrar a notícia de apenas um lado. Para mim, a Mídia Ninja é mais um canal do youtube que consegue propagar a notícia de um jeito não usual, mas eles só vão fazer jornalismo quando eles mostrarem os dois lados”, disse. 
    Jornalista é aquele que consegue se afastar do fato. Isso justifica o uso de helicópteros e o distanciamento da grande mídia na cobertura desses protestos. Cabe as redações, ouvir os dois lados da história e tentar usufruir desse recurso que a Mídia Ninja oferece sem ferir o grande princípio do jornalismo: a imparcialidade. 


O novo jornalismo e a migração do papel para a internet

 Quais as causas e as consequências da informação obtida pela web e pelo jornal?
O jornalismo vive uma fase de mudanças, de adaptações às novas tecnologias, chamado de pós-industrial. A maneira como elas acontecerão ainda são incertas, mas não restam dúvidas que elas têm que acontecer para o ofício sobreviver. Sabe-se que essa transição não vai ser simplesmente abandonar o papel e passar para internet.
Vários jornais impressos já foram à falência, caso do “Jornal do Brasil” que ficou apenas com a versão online. Por essa razão ocorreram muitos cortes. De acordo com um levantamento do site Comunique-se, no ano de 2012 acorreram 1.200 demissões de jornalistas, e a expectativa este ano aumente mais ainda. O que faz do mercado ainda mais competitivo e menor.

                           A crise no jornalismo impresso

Os leitores do impresso e do online esperam encontrar as notícias em formatos diferentes. Uma pesquisa da Universidade da Georgia, nos EUA, sobre os graduandos em jornalismo do ano de 2012, mostrou que sete entre 10 estudantes preferiam ler as notícias em portais digitais ou redes sociais em vez da mídia impressa. É o caso de João Victor Fiuza, de 21 anos, estudante de jornalismo da PUC-Rio.
“O jornal online é de fácil acesso, além de ser muito mais prático que o impresso, que é difícil de ser manuseado. Só leio o papel no domingo, quando tenho mais tempo de parar, sentar e ler”, explica Fiuza.
Além disso, os portais da internet também têm a vantagem do público poder dialogar com quem escreve a matéria. Essa interação atrai o leitor, que recebe uma resposta, e ajuda o jornalista a melhorar seu texto e, a saber o que o agrada mais.
 Para Roosevelt de Holanda, de 68 anos, jornalista aposentado, os sites da web não têm tanta preocupação com a qualidade da escrita o importante é publicar a notícia rápido.
“A diferença básica entre uma notícia na web e no impresso se dá com base no tempo que cada veículo dispensa ao tratamento da notícia. A web, a exemplo da TV, é mais instantânea e por isso mesmo mais superficial”, completa Holanda.
Segundo Suely Caldas, colunista do Estadão, o julgamento do mensalão foi dado de forma muito mais completa no impresso do que no online.
“No papel, você encontra todas as informações sobre o julgamento, de forma concisa. Além do que aconteceu, informações úteis sobre o assunto também são agregadas como, por exemplo, quem será o novo juiz relator julgamento. O leitor é mais exigente, quer mais informações”, defende Suely.
O público que compra o jornal nas bancas ainda gosta do ritual de tomar café da manhã ao mesmo tempo em que lê um exemplar e reflete sobre o assunto lido. E ainda hoje o impresso é o que sustenta o online. A publicidade dos portais na web ainda não é suficiente para bancar toda redação de um jornal grande. Os anúncios publicados no papel valem muito mais do que os na internet.

A chamada mídia alternativa trouxe uma nova forma de se assistir aos protestos. Como nem sempre podemos acompanhar ao vivo as manifestações pelas grandes emissoras nem mesmo pela internet, a Mídia Ninja acrescentou uma nova forma de informar. O leitor consegue observar imagens dos protestos capturadas por smartphones. Também se tem uma visão diferente das notícias por meio da Pós-Tv, Vidigal blog, nova democracia, sites “alternativos”.

                O valor do trabalho feito pela Mídia Ninja

            A onda de manifestações, que começou em junho desse ano e dura até hoje, mostrou ao Brasil uma nova forma de transmitir imagens ao vivo. A Mídia Ninja ficou conhecida desde então por exibir imagens desses acontecimentos em tempo real, sem cortes, nem edições através de smartphones.
Os ninjas surgiram a partir do trabalho da Casa Fora do Eixo, um conjunto de artistas e produtores culturais, de São Paulo. Um núcleo de comunicação foi criado para divulgar os projetos, em 2009. Eles já transmitiam manifestações como a Marcha da Maconha e das Vadias antes de 2013, mas só agora ficaram conhecidos.
A Mídia Ninja ganha cada vez mais apoio dos participantes de protestos. É o caso do movimento Ocupa Cabral, que pede o impeachment do governador Sérgio Cabral com barracas e cartazes, na Avenida Delfim Moreira, esquina com a Rua Aristides Espínola, e já dura 38 dias. Os manifestantes apoiam a ação dos ninjas e até os protegem, mas tratam com raiva e até expulsam repórteres de outras emissoras que vão cobrir os atos.
Para o manifestante do movimento Ocupa Cabral Vera Punk, de 20 anos, recreador familiar, os ninjas mostram a verdade, sem manipulação.
“A mídia como a Globo, a Record, RedeTV!, SBT, segundo o ibope, mostram o que eles acham que vai dar dinheiro, a Mídia Ninja não, ela mostra a verdade. As outras emissoras mentem, mostram coisas que aconteceram há três ou quatro meses como se fosse agora”, defende Punk.
            Já Roberto Freire, de 23 anos, também participante do movimento e tatuador, apesar de ser a favor dos ninjas não considera o trabalho deles jornalismo.
“Eles só mostram um lado, o nosso lado. O que para gente é bom, mas não é para quem quer saber os dois lados. Jornalismo para crescer tem que ser imparcial”, explica Freire.
O debate sobre a Mídia Ninja segue e a incerteza sobre o futuro dela também. Ainda há muito a se fazer para melhorar a informação levada para os espectadores, começando pela qualidade das imagens que são exibidas pelos ninjas. Os jornalistas também se perguntam como eles vão se sustentar se esse trabalho for adiante. 

A globalização obriga uma mudança imediata na forma de fazer jornalismo

Com o webjornalismo mais forte o jornal impresso precisa se adaptar ainda mais

 Ana Carolina Bessa 
O jornal impresso continua perdendo público gradativamente e precisa rever  sua estrutura. Para o professor de Mídias Globais da PUC – Rio, Luiz Léo, a sobrevivência da mídia já é um desafio a seus produtores.
- Os jornais tenderão a se aproximar mais do que já fazem as revistas. O desafio é fazer o tratamento mais cuidadoso dos fatos, oprimidos pela periodicidade diária – constatou o professor.

O contemporâneo mundo globalizado trouxe a internet ao grande público. Esse advento tecnológico está em constante mutação e transformou o jornalismo diário e tradicional que a família real trouxe ao Brasil. Desde 1990 o brasileiro vem aprendendo a ter a internet em seu dia a dia e foi se adaptando às mudanças sociais acarretadas por ela.

Os meios tradicionais tiveram que migrar para o online, e essa mudança foi gradativa. Hoje, praticamente todos os veículos de comunicação tem uma plataforma online. Alguns telejornais e programas de rádio são transmitidos em tempo real ou postados na integra. Jornais impressos disponibilizam para seus assinantes uma versão online, exatamente igual a que está nas bancas. Essa foi a primeira forma encontrada pelos donos dos jornais na tentativa de se adequar a nova mídia, e não perder parte de seu público.

Com a migração do impresso para o online surgiram os portais de notícia, meio por onde a maioria das pessoas se informa atualmente. A propaganda também está nos sites, gerando lucro as empresa assim como nas propagandas impressas. Essa mudança de plataforma deu uma sobrevida aos jornalistas que produzem os jornais impressos.
NOVAS MUDANÇAS

O jornalismo feito especificamente para os sites tem particularidades. A rapidez da informação é marcada pela superficialidade inicial, mas tem a vantagem que o jornal impresso não tem. Thomás Milhazes tem de 22 anos, e é estagiário no site da Band Rio, ele acredita que o poder de atualização da internet atrai mais leitores.
- Atualizar é uma ferramenta interessante comercialmente, deixa o leitor esperando pelas novidades, atraindo mais acessos para o site - disse Thomás.

O professor Luiz Leo conta que evita os sites de notícia, mas busca a versão online dos jornais. Para ele, o impresso não tem condições de concorrer com o virtual.
 - Não existe alternativa de sobrevivência para um meio impresso, senão integrar-se à rede – afirmou o professor.

A futura jornalista Roberta Oliveira, de 20 anos, acredita que além de modificar a forma de fazer jornalismo a internet encurtou a data de validade das notícias.
  - O que antes era uma matéria quente, hoje é dado em tempo real. Isso dificulta o jornalismo de hardnews do impresso, que acaba sendo atropelado pelo dinamismo da internet - afirmou Roberta.

Cada meio tem a sua linguagem: o rádio informa com do som, a televisão pela imagem, os jornais através do texto, e a internet consegue unir isso tudo. A partir desse conceito, a internet modificou todos os meios, cada um de uma forma.  A Mídia Ninja, com sua transmissão em tempo real, é um grande exemplo de uma nova forma de jornalismo online. (Leia mais: Conflito de poderes: mídia versus mídia)


Os donos de jornais sentiram no bolso todas as transformações que a internet trouxe, todos os veículos tiveram que investir em sites. Mas o webjornalismo ainda terá que conquistar a credibilidade do impresso para superá-lo totalmente. A vantagem do impresso continua adequando a noticia ao decorrer do dia. O jornal O Globo publicou do dia 25 de setembro uma reportagem sobre a 68a Assembleia Geral das Nações Unidas. Na versão online estava a mesma base veiculada de manhã pelo impresso, porém atualizada, deixando o texto um pouco mais leve, dinâmico e completo.

Conflito de poderes: mídia versus mídia.
Final de uma tarde de domingo. Há mais de dois meses manifestantes vivem em barracas em frente à esquina das Ruas Delfim Moreira e Aristides Espínola, no Leblon, onde vive o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral. Naquele momento, por volta das 16h30,  um grupo de 30 pessoas estava reunido, entre elas a Black Bloc Emma.
Com o grupo estavam moradores e visitantes de todas as idades. A polícia marcava presença com cinco viaturas fixas. O ambiente era de paz, mesmo causando a indignação dos moradores que dizem já não ver sentido nessa forma de protesto. "Tem muito tempo que eles estão ai, e mudou alguma coisa? Não”, expressa a psicóloga Sabrina Shuave, de 37 anos. 
Já representantes do grupo acreditam na força do movimento e em uma possível mudança no cenário político nacional, com isso foi unânime a afirmação de que a Mídia Ninja é uma forma de fazer jornalismo. "A mídia tradicional tem criminalizado o movimento, tem distorcido os fatos para não mostrar a verdade. Mas também acho que a Mídia Ninja é tendenciosa para o lado dos manifestantes", diz a manifestante Luiza Dreyer, de 22 anos, estudante de Comunicação. 
Emma, de 20 anos, está acampada há 32 dias, e acredita que não só a Mídia Ninja como outras mídias independentes são importantes para mostrar a autenticidade do movimento, mas quando questionada sobre o crescimento da Mídia Ninja Emma diz: "Depender de recursos eles já dependem. O problema é continuar se mantendo em cima disso, acho que mesmo que cresçam podem continuar trabalhando assim. Sem que precisem se vender ou fazer qualquer tipo de conchavo”.
Henrique Rodrigues, manifestante de 19 anos, exalta a mídia alternativa e critica a ação da polícia. “Como sempre a mídia está manipulando as coisas. A Mídia Ninja está lá na linha de frente com a gente mostrando a covardia que eles fazem.” Já Renata Costa, de 28 anos, moradora do Leblon, diz que não acompanha a Mídia Ninja, mas reconhece o trabalho. “Acho que com a proposta que eles têm, se entrarem no formato do jornalismo tradicional, acabam”.
Dez policiais militares estavam próximos a casa do governado. Quando questionados disseram não ter permissão para expressar suas opiniões sobre as manifestações e as novas mídias.

Online e impresso dividem opiniões sobre destino da profissão

Leitores e especialistas falam dos lados bom e ruim das maneiras de ler as notícias 

Marina Burdman 

            "Jornalismo Independente é tendência. Vem!". É o que diz uma das postagens da página oficial do Coletivo Nigéria, veículo jornalístico online e independente. A frase, usada para estimular os leitores a contribuírem com doações para um outro site de notícias online, é representativa dentro do quadro atual de discussões sobre o futuro do jornalismo. A cobertura online e ao vivo que parte das mídias independentes, como a Mídia Ninja e outros coletivos, realiza das manifestações populares que ocorrem pelo país desde junho fez crescer e divergir as opiniões sobre o destino da profissão. O jornalismo tende a se tornar 100% online? As mídias independentes tomarão o lugar das mais tradicionais na cobertura de eventos cotidianos? Há imparcialidade em algum tipo de jornalismo? As respostas para essas perguntas apontam para o mesmo lugar: a incerteza com relação a qual seria o melhor meio de passar as informações. 
            Assim como a opinião dos próprios jornalistas diverge, cada leitor tem uma preferência quanto ao modo de se atualizar. Enquanto parte deles afirma que não vive sem o papel, outra acredita que a instantaneidade do online é indispensável e supre todas as funções do impresso. É o caso do aposentado Rodolfo Pinto que, apesar de acompanhar o jornalismo impresso desde criança, aos 54 anos decidiu abandonar totalmente os hábitos antigos e afirma ter se rendido ao online. "Estou aposentado e, apesar de ter tempo para ler o jornal, prefiro ler as notícias pelo tablet. Lá eu leio tudo o que tem no jornal impresso, mas posso ir clicando em matérias relacionadas que aconteceram há menos tempo", explica. O ex-engenheiro conta que não acredita que o jornalismo online leva à superficialidade. "Nos sites, eu consigo encontrar até os colunistas do impresso, normalmente em blogs. Não vejo como uma coisa superficial, e, sim, como um leque maior de possibilidades", afirma. 
            Já a estudante de cinema Monique Rangel diz que não consegue se desvincular do jornalismo impresso. Para ela, a grande quantidade de estímulos do online impede que ela se acostume com a internet. "Eu não consigo absorver as informações que leio online. É ridículo, dá meia hora e já esqueci. Acho que é uma questão familiar. Eu fui acostumada assim", afirma. Monique diz que não vê nenhuma vantagem no jornalismo online que não exista em algum outro meio de comunicação. "Eu poderia falar que tem a vantagem da instantaneidade, mas isso a TV tem, o rádio tem, então não sei muito bem o que diferencia", diz.


Quando internet e papel se complementam

            Entre um extremo e outro, Julia Cruz, professora da PUC-Rio e coordenadora adjunta do Projeto Comunicar, que trabalha com notícias online e impressas relacionadas à universidade, acredita que esses tipos de jornalismo são complementares. Ela pensa que é possível a colaboração entre todos os tipos de mídias. Do ponto de vista de quem faz a notícia, Julia, que já trabalhou no jornal O Dia e hoje edita o portal online para crianças Dicas da Dinda, afirma que a principal diferença entre o online e o impresso é o público que cada um atinge. "Na hora em que você elabora o fluxo de notícias, você vai de acordo com a proposta de atualização que o veículo tiver. Se você tem um hardnews, você tem que ser de um jeito. Até a forma como você escreve é diferente, é a maneira de você viajar na notícia", explica. 
            Para ela, o fato de as informações serem lidas online ou nos veículos impressos é apenas uma das características da notícia. Julia acredita que o principal é o tipo de conteúdo que os leitores buscam. "Não muda muito se é online ou não. O Dicas da Dinda, por exemplo, tem um público que se assemelharia ao de um Rio Show para crianças. Então tudo depende, são públicos diferentes e formas diferentes de veicular a informação", afirma. Segundo Julia, a internet trouxe a possibilidade de ter mais veículos complementares pelo fato de ser mais barata. Ela aponta as mídias online como meios de entrar em contato com um maior número de pessoas e acredita que elas deixam mais espaço para trocas e experimentações.




 Importância reduzida para os ninjas

            A participação em massa da população durante as manifestações que ocorrem desde junho pelo Brasil deve-se, em grande parte, às transmissões ao vivo dos atos via internet. Por meio de redes sociais, como Facebook e Twitter, é possível acompanhar e sentir-se integrante dos protestos, mesmo que de casa ou do trabalho. O primeiro nome que vem à cabeça das pessoas quando o assunto se trata dessas transmissões é a Mídia Ninja. O engajamento do grupo que promete transmitir ao vivo e na íntegra as manifestações é tido como um futuro provável para o jornalismo, ou até mesmo como o único possível para a profissão.
             O canal, no entanto, não impressiona da mesma forma quem já estava envolvido com os atos antes de eles tomarem a proporção atual. Na praia do Leblon, em frente à casa do governador Sérgio Cabral, há um grupo de militantes acampado há mais de um mês como forma de protesto. De black blocs a moradores de rua, eles vivem em uma espécie de comunidade que compõe o Ocupa Cabral. O tom de divisão de bens atinge a qualquer um que chegue perto do grupo, que oferece cobertores e sanduíches a quem ocasionalmente pare para uma conversa. Os integrantes são parte do pequeno número de pessoas engajadas nos atos que, apesar de gostarem da Mídia Ninja, acreditam que ela é apenas um dos canais em que se pode obter o que chamam de jornalismo de qualidade. Isso é colocado pelo grupo de forma tão enfática que destacar as outras mídias parece ser um dos objetivos dos acampados. "Quando você diz Mídia Ninja, você está me perguntando da mídia independente em geral ou especificamente da 'Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação'?", perguntou imediatamente o rapaz que vestia uma boina igual a do ex-líder revolucionário Che Guevara, que disse também se chamar Ernesto. "As pessoas confundem muito. Mídia independente é toda aquela em que as pessoas estão com a câmera na mão e querem mostrar a verdade. Ela é mais humana", argumentou.
            A questão da humanidade foi a que Ernesto mais fez questão de destacar. O professor de Biologia, que participa da ocupação desde que ela teve início, acredita que os jornalistas contratados pelas grandes empresas, ao aceitarem a incumbência de reportar a partir dos interesses de um pequeno grupo, estão "perdendo as características humanas e deixando de ser participativos com o povo". Um homem, que pediu para ser identificado como D.R., mostrou concordar com Ernesto sobre a parcialidade da mídia tradicional, que, segundo ele, deve-se principalmente à edição das imagens. D.R. disse que acredita ser impossível alcançar a verdade quando algum fato é cortado. "O ao vivo é o fato em si, é como se você estivesse vendo. A Mídia Ninja, por exemplo, mostra a agressão policial. Ela mostra a verdade", disse, enquanto acenava para um dos carros que buzinavam constantemente em apoio ao movimento. 

Os jornais na internet se mantém entre a pressa e a perfeição

Profissionais e leitores citam velocidade e qualidade dos textos online e impressos

Matheus Vasconcellos

              Hoje, os usuários da internet recebem diversas informações que chegam de todos os lugares. Assim, o jornalismo online tem se tornado muito mais relevante do que era há dez anos. A todo instante recebemos informações via celular, tablets, computadores pessoais e qualquer outro dispositivo que esteja conectado à rede. Porém, hoje existe o medo que o jornal impresso se abale por conta do espaço que o jornalismo online tomou.

            Para Alice Lima, aluna de jornalismo na Uerj, o jornalismo na internet veio para complementar e suprir uma necessidade que o impresso não conseguia mais satisfazer: o imediatismo dos fatos:

– Assim como o rádio e a televisão, a internet abastece o usuário na hora em que os fatos acontecem. Isso faz com que o jornalismo online seja mais acessado hoje. Porém, assim como aconteceu com o rádio e já aconteceu com a televisão por causa da chegada da internet, o jornal impresso vai precisar se adaptar. Talvez seja a hora de tentarmos um jornalismo mais opinativo, quem sabe como o modelo norte-americano? Não sei, mas acredito que possa funcionar melhor.

A briga por leitores nas telas
            
            Querendo ou não o espaço tomado pela internet é muito grande. Hoje o portal de notícias online das Organizações Globo, o G1, recebe diariamente 6 milhões de visitantes, enquanto a tiragem do jornal O Globo teve em 2012, uma média de 277 mil exemplares diários.

            Atualmente, acompanhar mídias alternativas através da internet tem sido uma boa opção para quem não quer seguir a mídia tradicional. Assim, desde junho apareceu de vez no cenário nacional a Mídia Ninja. Os atuais “opositores ao sistema tradicional do jornalismo”, que de acordo com participantes está “corrompido” transmitem em tempo real eventos nos quais os jornalistas profissionais são impedidos por alguns manifestantes de cobrir, por exemplo, as manifestações de rua. Os Ninjas utilizam o streaming, que é usar a internet para a transmissão de vídeos ao vivo, e principalmente, o Twitter. Porém, pelo que parece, a mídia tradicional ainda está vencendo essa disputa. Enquanto a Mídia Ninja tem pouco mais de 22 mil seguidores, o Jornal O Globo tem mais de 1 milhão de followers, ou seja, pessoas que o acompanham na rede social.

            Douglas Mandarino, aluno de Ciência da Computação na PUC-Rio, acompanha o noticiário pela internet e acha muito mais prático:

 – Não dá para ficar levando o jornal impresso pra tudo quanto é lugar. É incômodo e desagradável. Sem falar que você compra o jornal de manhã e na hora do almoço ele já está velho, tirando algumas partes que são mais analíticas, as informações têm validade muito curta. No meu celular, pelo 3G, eu consigo me manter sempre informado sobre qualquer assunto, em qualquer lugar, sem precisar carregar mais nada, só o meu aparelho. É muito melhor – com relação à qualidade, Douglas ainda assim prefere o jornalismo online:

– Na internet é mais fácil corrigir erros, no impresso o erro permanece até o próximo dia, se ele for corrigido. No online você pode até ter mais pressa pra colocar no ar, mas do mesmo modo que uma coisa errada entra, ela sai. Quantos erros históricos do jornalismo online você lembra? E no impresso? Aposto que no impresso são bem mais erros.

            De acordo com Juliana Pazos, repórter do site TechTudo, a velocidade com que as informações precisam ser divulgadas na internet é um problema a ser vencido, mas também um desafio prazeroso:

 – A rapidez com que uma informação é passada na internet pode ser um empecilho para o jornalista profissional. A apuração precisa ser cada dia mais veloz, mas também, mais eficaz. Isso provocou uma revolução também no texto. A objetividade e o modo como devemos escrever é um desafio, mas é também um excelente exercício da nossa profissão.


            Assim, as mídias tradicionais parecem ainda respirar frente à internet e é bem possível que dentro dos próximos anos aconteça uma grande mudança no modo como os jornais impressos se comportam. Só assim, pode ser, que o futuro não pareça tão sombrio e derradeiro para a imprensa.

Jornalismo ou não, a mídia ninja está aí

            Desde junho diversos protestos populares tomam conta do Brasil pedindo, um país mais justo, mais honesto, mais transparente. Com uma proposta diferente de divulgação e transmissão de informações, em tempo real, apareceu para o cenário nacional a Mídia Ninja, sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. Em pouco tempo, a transmissão via streaming, utilizada pelo grupo foi considerada inovadora e tomou conhecimento mundial.

           Gabriel Kopke, 22 anos, estudante de história na UFF, acompanha a mídia ninja através das redes sociais e por conversas. Ele acredita que esses dois instrumentos, a internet e a troca de ideias, são meios informais para a receber notícias:

– Infelizmente, toda tentativa de coletar informações e passá-las ao público já é tratada como jornalismo. A mídia tradicional trata seu público apenas como consumidor. Não costuma se aprofundar em questões mais emblemáticas ou não entra em assuntos "delicados". Qualquer tentativa de quebrar com essas regras e “alternativizar” o monopólio da informação é bem vinda. Creio que a imparcialidade é utopia! Mas, a questão é, a que lado devemos buscar defender, que questões políticas estamos analisando, e de que forma tratamos os assuntos abordados. Então, vejo que são sim jornalistas, mas deveríamos diferenciá-los dos que jogam palavras ao ar de qualquer maneira e se dizem sérios.

                Morador do Leblon, Gustavo Angeleas, estudante de Comunicação na PUC-Rio, quase não tem contato com o grupo que está acampado. Nem sempre passa por onde estão acampados. Para ele, a Mídia Ninja é jornalismo também:

– Só acho que eles não são uma mídia tão imparcial quanto algumas pessoas dizem. Eles tomam partido ao lado dos manifestantes. Mas, pra mim, isso não quer dizer que eles são "menos jornalísticos". Às vezes, mostram mais do que a mídia tradicional.

               Mas, algumas pessoas consideram o grupo como um divulgador de manifestações e não um veículo jornalístico. É o caso de um homem que se identificou como Paulo e trabalha no Leblon. Para ele não existe jornalismo “Ninja”:

– Esses caras da mídia ninja são outros babacas. Provocam os policiais até apanhar, quando começam a bater neles (manifestantes), eles filmam e vão reclamar na internet. Se for filmar, filma tudo. Quero ver mostrar manifestante dando tapa na cara de policial. Só mostram o que querem, o que vai dar audiência pra eles! Onde isso é jornalismo?