terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dilemas e soluções vistos nas duas formas de fazer jornalismo



No Lance!, pautas são tratadas de formas diferentes no site e no diário
                                                      Felippe Rocha

     Com a evolução da tecnologia, é cada vez mais comum que o leitor deixe de comprar jornais impressos para se informar e acessar as notícias pela internet, seja no mesmo veículo ou em um site de outro grupo. Outra importante discussão é a da quantidade e densidade das informações em um formato ou em outro, como salienta Vinícius Faustini, editor do diário esportivo Lance!:
     – Eu gosto muito do impresso, acho mais valioso, mais legal ter o impresso. Até por que ele pode ser mais aprofundado. Na web, o texto tem que ser muito mais corrido, mais curtinho. No jornal, vem mais informação, você pode dar meia página, uma página de destaque, é muito mais interessante. É possível reparar aqui mesmo no Lance!.

Novidade para um, sedução para o outro

     Não é raro o grupo se ver no dilema da distribuição de conteúdos originais entre o site e o jornal, observando sempre a necessidade de dar ao leitor do impresso uma novidade e ao leitor do site uma atração maior.
     – Na web, é possível linkar (introduzir links) nas notas e reportagens. No jornal, você já coloca quadros para destacar e lembrar a história toda, quando necessário. Eu sou muito ligado no impresso, saudosista. Acho que tem mais conteúdo, acho que falta muita coisa na web ainda, tem muita informação rasa – completou Faustini.
     O fato de, na web, em geral, ter menos informações que no impresso, é corroborado e explicado pelo editor do site do mesmo grupo esportivo, Thiago Pereira:
     – Não adianta, se você faz um texto muito grande o cara não lê. Por isso é sempre bom ter imagens para ilustrar, parágrafos curtos, espaços entre os parágrafos. Exatamente para quebrar essa sensação de um texto muito blocado.
     Para Roberto Moura, recém-graduado em engenharia e “consumidor compulsivo de informações, seja de onde for”, como ele mesmo se classifica – inclusive da Mídia Ninja – o advento do vídeo no jornalismo é importante, e, por isso, o jornalismo independente vem ganhando seu espaço.
– É um atrativo a mais. A web tende a minar o impresso por isso, creio eu. Você pode ter muitas coisas dentro da mesma tela, e isso é incrível! Fora o que pode ser visto por fora da página, na home do site original, por exemplo.
    Duas pautas relevantes que o diário Lance! e o site lancenet.com.br trabalharam nas últimas semanas foram uma entrevista com o zagueiro Dedé, do Cruzeiro – líder do Campeonato Brasileiro – e o péssimo estado de conservação do parque aquático do Vasco da Gama, que já foi local de treinos de medalhistas olímpicos do Brasil e da Europa, e que hoje está entregue aos mosquitos, como criadouro.
     A entrevista com o defensor da equipe celeste rendeu duas páginas no jornal. Entretanto, como aprofundar a temática no site, considerando o que o próprio Thiago Pereira disse acima? O conteúdo foi, então, desmembrado. Além da entrevista com os assuntos mais relevantes, outras notas foram criadas para gerarem, inclusive, mais cliques para o site.
     Fato semelhante pôde ser visto com a reportagem sobre o parque aquático cruz-maltino, que recebeu várias notas relacionadas nas mesmas páginas do texto principal no diário, mas que, no site, teve os complementos entrando como notas subsequentes e/ou linkadas. Para Daniel Guimarães, setorista do núcleo Vasco no grupo Lance!, tal diferenciação é necessária:

     – Para que brigarmos com o leitor? Temos que fazê-lo ler nas duas frentes (impresso e web). Por isso mesmo esse tipo de reportagem, exclusiva, é dada, no site, na mesma manhã em que sai no impresso, para o leitor ter acesso a ela da forma como quiser.

Consciência x desinformação

     Eu me surpreendi ao me deparar com o ambiente de um acampamento descompromissado de higiene em pleno Leblon. Me surpreendi mais ainda por não ver ninguém acordado às 8h. Me dirigi, então, aos três policiais militares que faziam a segurança do prédio do seu chefe maior. Naturalmente, por mais educada que pudesse ser a explanação sobre a minha presença ali, a primeira reação foi de desconfiança:
     – Isso ai só no site deles mesmo – resumiu o oficial Praseres. Insisti, e os outros PMs se mostraram mais solícitos:
     – Temos um acordo de cavalheiros. Nossa relação com eles é até bem tranquila, até que chega o pessoal de fora – disse Azevedo, se referindo aos outros grupos de manifestantes. A sensação que ficou em mim foi a de falta de informação ou de capacidade de dissociação dos manifestantes e dos integrantes da Mídia Ninja, criticados pelo policial Alexandre por não mostrarem o rosto quando estão fazendo as filmagens:
     – Acho que você perde o direito como cidadão quando vem fazer qualquer coisa com o rosto coberto, que é como eles vêm filmar – afirmou, antes de citar a capacidade de modificação dos humores quando uma câmera aparece em qualquer situação:
    – Não tem jeito, sempre altera o comportamento. No Carnaval, quando a mulher está com a câmera em cima dela, ela começa a rebolar mais. Aqui não é diferente. E tem vezes que a imprensa tradicional nos estimula a partir para cima deles, para eles (imprensa) terem a melhor imagem.
     Satisfeito com o extraído dos PMs, voltei minhas atenções ao acampamento. Coincidência ou sorte, quem estava levantando era uma colega de faculdade, a minha veterana Luiza Dreyer. Ela entendeu que a minha estada ali era para saber a opinião acerca da Mídia NINJA:
     – É uma mídia alternativa que se estruturou na publicidade e no trabalho de base, influenciando o crescimento das outras mídias alternativas. A NINJA é mais uma mídia alternativa, e as mídias alternativas são o novo “jornalismo informal – afirmou a estudante de cinema.
     – É o jornalismo que a população recorre nos momentos de crise, porque nós não podemos contar com o jornalismo tradicional no momento de cobrir uma briga em manifestação, por exemplo.
     A essa altura, alguns outros manifestantes já haviam acordado, e foi possível perceber que Luiza não era a única com o cabelo pintado de uma cor fora do comum. A estudante completou, fazendo uma ressalva importante:
    – Sei que o jornalismo alternativo coberto pelo manifestante é tendencioso por pegar o depoimento do manifestante. Até por que ele, que faz a cobertura, não precisa ser jornalista formado para portar uma câmera. Mas o policial também pode fazer a mídia alternativa dele. Isso que é legal: não depender do Estado.

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