No Lance!,
pautas são tratadas de formas diferentes no site e no diário
Felippe Rocha
Com a evolução da tecnologia, é cada vez
mais comum que o leitor deixe de comprar jornais impressos para se informar e
acessar as notícias pela internet, seja no mesmo veículo ou em um site de outro
grupo. Outra importante discussão é a da quantidade e densidade das informações
em um formato ou em outro, como salienta Vinícius Faustini, editor do diário
esportivo Lance!:
– Eu gosto muito do impresso, acho mais
valioso, mais legal ter o impresso. Até por que ele pode ser mais aprofundado.
Na web, o texto tem que ser muito mais corrido, mais curtinho. No jornal, vem
mais informação, você pode dar meia página, uma página de destaque, é muito
mais interessante. É possível reparar aqui mesmo no Lance!.
Novidade para um, sedução para o outro
Não é raro o grupo se ver no dilema da
distribuição de conteúdos originais entre o site e o jornal, observando sempre
a necessidade de dar ao leitor do impresso uma novidade e ao leitor do site uma
atração maior.
– Na web, é possível linkar (introduzir links) nas notas e reportagens. No jornal, você já coloca quadros
para destacar e lembrar a história toda, quando necessário. Eu sou muito ligado
no impresso, saudosista. Acho que tem mais conteúdo, acho que falta muita coisa
na web ainda, tem muita informação rasa – completou Faustini.
O fato de, na web, em geral, ter menos
informações que no impresso, é corroborado e explicado pelo editor do site do
mesmo grupo esportivo, Thiago Pereira:
– Não adianta, se você faz um texto
muito grande o cara não lê. Por isso é sempre bom ter imagens para ilustrar,
parágrafos curtos, espaços entre os parágrafos. Exatamente para quebrar essa
sensação de um texto muito blocado.
Para Roberto Moura, recém-graduado em
engenharia e “consumidor compulsivo de informações, seja de onde for”, como ele
mesmo se classifica – inclusive da Mídia Ninja – o advento do vídeo no
jornalismo é importante, e, por isso, o jornalismo independente vem ganhando
seu espaço.
– É um atrativo a mais. A web tende a
minar o impresso por isso, creio eu. Você pode ter muitas coisas dentro da
mesma tela, e isso é incrível! Fora o que pode ser visto por fora da página, na
home do site original, por exemplo.
Duas pautas relevantes que o diário Lance! e o site lancenet.com.br trabalharam nas últimas semanas foram uma
entrevista com o zagueiro Dedé, do Cruzeiro – líder do Campeonato Brasileiro –
e o péssimo estado de conservação do parque aquático do Vasco da Gama, que já
foi local de treinos de medalhistas olímpicos do Brasil e da Europa, e que hoje
está entregue aos mosquitos, como criadouro.
A entrevista com o defensor da equipe
celeste rendeu duas páginas no jornal. Entretanto, como aprofundar a temática
no site, considerando o que o próprio Thiago Pereira disse acima? O conteúdo
foi, então, desmembrado. Além da entrevista com os assuntos mais relevantes,
outras notas foram criadas para gerarem, inclusive, mais cliques para o site.
Fato semelhante pôde ser visto com a
reportagem sobre o parque aquático cruz-maltino, que recebeu várias notas
relacionadas nas mesmas páginas do texto principal no diário, mas que, no site,
teve os complementos entrando como notas subsequentes e/ou linkadas. Para Daniel Guimarães, setorista do núcleo Vasco no grupo
Lance!, tal diferenciação é
necessária:
– Para que brigarmos com o leitor? Temos
que fazê-lo ler nas duas frentes (impresso e web). Por isso mesmo esse tipo de reportagem, exclusiva, é dada, no
site, na mesma manhã em que sai no impresso, para o leitor ter acesso a ela da
forma como quiser.
Consciência
x desinformação
Eu me surpreendi ao me deparar com o ambiente de um acampamento descompromissado de higiene em pleno
Leblon. Me surpreendi mais ainda por não ver ninguém acordado às 8h. Me dirigi,
então, aos três policiais militares que faziam a segurança do prédio do seu
chefe maior. Naturalmente, por mais educada que pudesse ser a explanação sobre
a minha presença ali, a primeira reação foi de desconfiança:
– Isso ai só no site
deles mesmo – resumiu o oficial Praseres. Insisti, e os outros PMs se mostraram
mais solícitos:
– Temos um acordo de
cavalheiros. Nossa relação com eles é até bem tranquila, até que chega o
pessoal de fora – disse Azevedo, se referindo aos outros grupos de
manifestantes. A sensação que ficou em mim foi a de falta de informação ou de
capacidade de dissociação dos manifestantes e dos integrantes da Mídia Ninja,
criticados pelo policial Alexandre por não mostrarem o rosto quando estão
fazendo as filmagens:
– Acho que você perde o
direito como cidadão quando vem fazer qualquer coisa com o rosto coberto, que é
como eles vêm filmar – afirmou, antes de citar a capacidade de modificação dos
humores quando uma câmera aparece em qualquer situação:
– Não tem jeito, sempre
altera o comportamento. No Carnaval, quando a mulher está com a câmera em cima
dela, ela começa a rebolar mais. Aqui não é diferente. E tem vezes que a
imprensa tradicional nos estimula a partir para cima deles, para eles
(imprensa) terem a melhor imagem.
Satisfeito com o
extraído dos PMs, voltei minhas atenções ao acampamento. Coincidência ou sorte,
quem estava levantando era uma colega de faculdade, a minha veterana Luiza
Dreyer. Ela entendeu que a minha estada ali era para saber a opinião acerca da
Mídia NINJA:
– É uma mídia
alternativa que se estruturou na publicidade e no trabalho de base,
influenciando o crescimento das outras mídias alternativas. A NINJA é mais uma
mídia alternativa, e as mídias alternativas são o novo “jornalismo informal –
afirmou a estudante de cinema.
– É o jornalismo que a
população recorre nos momentos de crise, porque nós não podemos contar com o
jornalismo tradicional no momento de cobrir uma briga em manifestação, por
exemplo.
A essa altura, alguns
outros manifestantes já haviam acordado, e foi possível perceber que Luiza não
era a única com o cabelo pintado de uma cor fora do comum. A estudante
completou, fazendo uma ressalva importante:
–
Sei que o jornalismo alternativo coberto pelo manifestante é tendencioso por
pegar o depoimento do manifestante. Até por que ele, que faz a cobertura, não
precisa ser jornalista formado para portar uma câmera. Mas o policial também
pode fazer a mídia alternativa dele. Isso que é legal: não depender do Estado.
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