Veículos de comunicação criam cada vez
mais artifícios para se aproximar do público online
Amanda Rocha
Em terra de papel, quem tem smartphone é rei. O mundo está sendo
engolido pelas novas tecnologias e o jornalismo impresso sofre ameaças. Todos
os dias, novos portais de notícia alternativos são criados. A Mídia Ninja,
expoente da mídia alternativa no país, se tornou preferência de muitos quando o
assunto é a cobertura dos protestos que ocorrem desde junho no Brasil. Com um
celular na mão, mostram ao vivo o que acontece nas ruas. É um novo jeito de se
documentar que vem conquistando leitores. "Muitas vezes, o conteúdo da
mídia alternativa não vem filtrado e editado. É muito óbvio para nós, mas para
um editor é difícil entender que informação não é apenas o editado",
explica Rosental Alves, diretor do Knight
Center for Journalism in Americas, programa de extensão e capacitação de
profissional para jornalistas na América Latina e no Caribe. Não só os leitores
migram para canais online, como os anunciantes também, já que podem comprar
espaços bem mais baratos.
Foi assim que, em
março deste ano, a The New York Times Company, responsável por um dos mais
importantes jornais do mundo, demitiu 100 pessoas, além de reduzir o salário
dos funcionários. No Brasil, a Editora Abril comunicou o fechamento de quatro
revistas e a dispensa de 150 profissionais. O Jornal do Brasil, consagrado no país, anunciou o fim de sua versão
impressa em 2010, carregando agora o slogan “O primeiro jornal 100% online do
país”.
Mídias tradicionais precisam se adaptar às mudanças
Rosental afirma ainda que, apesar de ser um período de crise, é muito
rico para quem se arriscar a tentar o novo. "As mudanças implicam em
períodos de caos e incertezas, mas também nos oferecem oportunidades. É nesse
momento em que devemos buscá-las", ele explica.
E buscam. O jornal O Globo
criou, em 2012, o seu caderno "Globo a Mais". É um espaço feito
especialmente para os iPads. Lá, o leitor mantém uma experiência multimídia com
a notícia, algo que não é possível com o impresso. "Aproveitamos esse
canal para que o leitor, de fato, viva a notícia. Por exemplo: se ele está
lendo a crítica de um filme ou conhecendo uma banda nova no caderno de cultura,
nós sempre colocamos um vídeo do assunto no final, para que ele possa tirar
suas próprias conclusões", diz Adriana Barsotti, ex-editora do Globo a Mais.
É essa a interação procurada pelos leitores. Eles querem ler, mas também
ouvir. Ouvir, mas também opinar. Se for o caso, mudar o rumo de uma notícia por
conta das opiniões. Foi o que aconteceu com a revista Capricho. Em julho de 2012, ao publicar o depoimento de uma menina
que tinha sua primeira relação sexual mesmo sem estar com vontade, a redação
recebeu milhares de críticas em todas as redes sociais e na própria caixa de
comentários da matéria. Os leitores reclamavam, acusando a revista de incitar
comportamentos parecidos em outras adolescentes, público-alvo da Capricho. A repercussão foi tanta que
eles precisaram se retratar publicamente. “Essa é a maior graça das publicações
online. Você não precisa mandar uma carta, que passa por um filtro, para talvez
ser publicada, e para que, talvez, alguém leia. Na internet, o público tem voz
de verdade. Se incomodou, o veículo tem que se explicar”, opina Ana Luiza
Cardoso, estudante de jornalismo.
Mídia Ninja na visão dos manifestantes
13h54, Avenida Delfim Moreira com Rua Aristides Espínola. De
um lado, a praia do Leblon recebe cariocas e turistas, ostentando um termômetro
que marca 35 graus. Do outro, no canteiro que divide os sentidos da rua,
barracas de camping enfeitam a
paisagem, fazendo uma grande roda em volta de uma lona que se tornou a
"sala comum" do acampamento. Lá dentro, em torno de oito pessoas
juntam dinheiro para comprar um garrafão de água - o primeiro líquido do dia a
descer aquelas gargantas. "Aqui temos dias bons e dias ruins. Hoje é um
dos dias ruins", explica Luiza Dreyer, estudante e porta-voz do Movimento
Ocupa Cabral, que luta, entre outras causas, pelo impeachment do governador do
Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Os ocupantes formam um grupo bastante
heterogêneo de aproximadamente 40 pessoas. "Alguns ficam initerruptamente,
outros vêm apenas para dormir", ela conta. De noite, o movimento se
acentua. Mesmo com uma chuva torrencial, que os obriga a levantar a lona da
"sala comum" para escoar a água de tempos em tempos, eles se preparam
para fazer uma palestra.
O convidado é Pedro Noel, ativista formado em Filosofia na Espanha. No primeiro slide da apresentação, que é transmitida online através de um celular, Pedro compara as mídias tradicionais com os movimentos sociais do passado. "A estrutura engessada e centralizada, com base piramidal, imita os antigos movimentos sociais. Atualmente, não há mais um líder nem uma hierarquia da notícia, assim como os protestos”, explica. Para ele, a mídia alternativa já se solidificou. “A Mídia Ninja se firmou por fazer um jornalismo sério. Não há boatos. Tudo é apurado e pesquisado” ele diz, acreditando que o fato abre precedente para que diversos outros coletivos sigam o mesmo caminho. Do outro lado da sala, um homem com olhos de aproximadamente 40 anos (isso era tudo que podia ser visto do mascarado, em razão dos panos enrolados na cabeça), discorda. “O caminho para a Mídia Ninja se tornar grande é muito longo. Tão longo que vão aparecer diversos outros métodos de se fazer notícia por essa estrada. O importante é saber que hoje isso está nas mãos do povo”, diz ele, que não quis se identificar por “ter o direito de preservar sua imagem” (no mesmo dia, foi aprovado na Alerj o projeto de lei que proíbe o uso de máscaras em atos públicos).
O convidado é Pedro Noel, ativista formado em Filosofia na Espanha. No primeiro slide da apresentação, que é transmitida online através de um celular, Pedro compara as mídias tradicionais com os movimentos sociais do passado. "A estrutura engessada e centralizada, com base piramidal, imita os antigos movimentos sociais. Atualmente, não há mais um líder nem uma hierarquia da notícia, assim como os protestos”, explica. Para ele, a mídia alternativa já se solidificou. “A Mídia Ninja se firmou por fazer um jornalismo sério. Não há boatos. Tudo é apurado e pesquisado” ele diz, acreditando que o fato abre precedente para que diversos outros coletivos sigam o mesmo caminho. Do outro lado da sala, um homem com olhos de aproximadamente 40 anos (isso era tudo que podia ser visto do mascarado, em razão dos panos enrolados na cabeça), discorda. “O caminho para a Mídia Ninja se tornar grande é muito longo. Tão longo que vão aparecer diversos outros métodos de se fazer notícia por essa estrada. O importante é saber que hoje isso está nas mãos do povo”, diz ele, que não quis se identificar por “ter o direito de preservar sua imagem” (no mesmo dia, foi aprovado na Alerj o projeto de lei que proíbe o uso de máscaras em atos públicos).
Enquanto a palestra continua,
o “Punk”, como foi apelidado pelos companheiros, pede para que lhe tragam uma
laranja. Punk veste uma máscara dura de ferro com feições de caveira para
cobrir seu nariz e boca e empunha uma faca – de plástico, como as de festa de
aniversário infantil – para descascar a fruta. “Tá filmando isso aí, né? É bom
que a Globo veja”, ele grita.
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