Conteúdo na web
se expande entre a mídia tradicional e alternativa e gera debate
Tiago Coelho
O jornalismo online
e em tempo real já é rotina nas redações há muito tempo e o que se debate agora
é lugar que a mídia impressa terá num mundo cada vez mais digital. E se antes a
renda publicitária era o que faltava para o desenvolvimento da produção de
notícias na rede, não falta mais. Segundo relatório do Inter-Meios, pela primeira
vez, os investimentos publicitários na internet ultrapassaram o montante
veiculado em revistas.
Em 1995 o Jornal
do Brasil foi pioneiro em lançar uma versão na web. Dezoito anos depois,
mostrando a força da mídia online, o O Globo lançou uma publicação vespertina
para tablets e celulares, O Globo a Mais, se espalhando por diversas
plataformas e acirrando a rivalidade com os jornais impressos.
Para jornalista, web representa uma revolução
As transformações
e inovações que a internet trouxe para a profissão são consideradas por alguns
uma mudança profunda no jornalismo. O acadêmico e jornalista Rosental Calmon
Alves acredita no papel revolucionário da internet e vê com entusiasmo as
novidades e possibilidades que ela oferece.
– Estamos entrando
em um período de transformações em grandes dimensões e saindo do período industrial
para uma era de rede.
Hoje professor
da Universidade do Texas, Rosental observa que nem mesmo as mídias eletrônicas,
como o rádio e TV, provocaram transformações tão significativas.
– Rádio, TV e jornal foram revoluções pequenas. O sistema de redes é uma
revolução com r maiúsculo. Pela primeira vez o receptor é também emissor e isso
é uma mudança fundamental.
Com passagens pelas
redações do Jornal do Brasil e revista
Veja, Rosental, entretanto, pondera
que as mídias tradicionais e a web podem coexistir.
– Para a
travessia dos dois mundos será importante ter espírito inovador.
Este fator inovador apontado por Antônio Calmon Rosental
entrou no centro dos debates midiáticos quando neste ano o coletivo de
jornalismo Mídia Ninja passou a cobrir as manifestações que tomaram as ruas do
país.
Com câmeras de celulares,
o grupo faz suas transmissões ao vivo por todo o país via streaming. A
cobertura online dos “ninjas” provocou discussões. Muitos profissionais,
veículos e usuários da rede questionaram o trabalho do grupo, se perguntando se
o que eles fazem é mesmo jornalismo. Para Rosental o trabalho feito pela mídia
Ninja explica a forma como a mediação se estabelece hoje.
– Saímos de um
estado midiacêntrico para um estado eucêntrico, onde o espectador tem mais
controle sobre o conteúdo.
Fazer jornalismo na web pode ser fácil e
barato e por isso multiplicar os grupos de mídias independentes. Mas a internet
ainda tem a credibilidade e capacidade de oferecer um conteúdo qualificado
questionada pelos usuários.
Pedro Guimarães,
aluno do quinto período de jornalismo da PUC-Rio, acredita que a web tem espaço
para um conteúdo de qualidade, mas na hora de escolher entre o impresso e o
online para se informar melhor ele prefere a primeira opção.
– Leio os dois. Mas busco no impresso sempre a
melhor apuração, que muitas vezes não vejo na internet – compara o estudante que
é estagiário do Portal PUC-Rio.
Enquanto o
impresso foca no conteúdo, a web aposta na rapidez. Na edição impressa d’ O Globo de 26 de setembro, a manchete é
sobre as restrições do governo para a privatização dos aeroportos, que foi assunto
do dia anterior, já a manchete da versão online do mesmo dia era sobre a
aprovação de novas legendas pelo TSE, que foi tema do mesmo dia.
No entanto, cada
vez mais a internet vem buscando aperfeiçoar seu conteúdo. Rosental aponta a
Agência Pública como exemplo de bom jornalismo. A agência de jornalismo
investigativo sem fins lucrativos financiada por apoiadores como a Ford
Foundation ou por seus usuários através do sistema de crowdfunding.
Para Rosental, a
disputa entre os veículos tradicionais e a internet e a chamada mídia
independente é saudável e produtivo.
– Nada vai
ajudar mais o jornalismo profissional do que o jornalismo alternativo.
Mídia
Ninja tem apoio de manifestantes
No canteiro central da Avenida Delfim Moreira, no Leblon, próximo
ao posto 12, um grupo de manifestantes vive acampado em barracas desde o início
das manifestações em junho. O “Ocupa Cabral” fica em frente à Rua Aristides
Espindola, onde mora o governador Sérgio Cabral.
Cartazes, placas e algumas intervenções urbanas deixam claras as
reivindicações do grupo. Em uma placa de madeira estava a principal delas:
“Quem é fora Cabral, buzina!”. Alguns carros realmente buzinaram. Outros
veículos gritavam: “Vai trabalhar!”. No chão, desenhado com tinta branca,
símbolos do anarquismo e frases de protesto. Algumas mensagens perguntavam
sobre o paradeiro de Amarildo, morador da Rocinha desaparecido desde o dia 14
de julho, depois de ser levado por policiais militares até a UPP da Rocinha.
Há cinco metros de distância do acampamento, Pablo Jacob,
fotógrafo da Infoglobo fazia registros do local. “Falar com eles é difícil.
Ainda mais com isto aqui” – disse o repórter fotográfico mostrando o crachá com
seu nome, foto e a empresa em que trabalha.
Veterano nas coberturas das manifestações, Jacob considera positivo
o trabalho da mídia Ninja. “A tecnologia está aí e as pessoas tem que aproveitar
mesmo. As pessoas antes ficavam reféns da mídia tradicional e agora tem a
possibilidade de se manifestar.” Apesar de achar hostil a abordagem de alguns
manifestantes, o repórter fotográfico aprova a ocupação: “A luta é legal. Se o
país todo se engajasse, seria um país mais sério.”
Um grupo de quatro pessoas se aproximou de Pablo. Entre eles,
Luiza Dreyer, uma jovem com os cabelos pintados de roxo e um sorriso amigável.
Ela pediu ao fotógrafo que não fizesse imagens do rosto das pessoas que estavam
ali. O fotógrafo explicou que esta não era a sua intenção. Um rapaz
autodenominado Fox, vestido com uma camisa azul e um pano preto enrolado na
cabeça, pediu para ver as fotos feitas por Pablo, que se recusou. Diante da negativa,
uma discussão se estabeleceu. Fox disse que Pablo trabalhava para uma mídia
burguesa e o fotógrafo se defendeu dizendo que estava apenas fazendo seu
trabalho.
Luiza, ex-estudante de publicidade da PUC-Rio, tem uma postura
mais disponível em relação à imprensa, apesar de questionar o trabalho dos
veículos tradicionais e dar prioridade à mídia independente. “A mídia Ninja tem
ajudado muito a gente, pois a mídia tradicional tem decepcionado. Mas trato a
mídia Ninja como toda mídia alternativa que tem nos apoiado, como um blogueiro
do Vidigal. Mas sou aberta ao diálogo com os veículos de comunicação. Sou
radical, mas aberta ao diálogo sempre” – disse Luiza.