O sucesso da internet faz com que as diferentes mídias lutem por lugar
no mercado
Karina Groisman
O jornalismo tem sempre que se
reinventar. Porém, desde a criação da internet, em 1991, isso se intensificou
de forma que o ofício teve que se readaptar a uma nova era. Em 2000, quando a
popularidade da web atingiu seu pico, as outras mídias tiveram que lidar com
uma questão que até hoje atormenta o mercado: o jornal impresso vai ou não
sobreviver?
Para que essa questão seja
discutida, deve-se, antes de tudo, chegar à um consenso do que caracteriza o
jornalismo, já que, atualmente, existem diversas formas de propagar um
conhecimento. Para alguns, fazer jornalismo é apenas espalhar uma notícia,
independentemente de como se escreva, mas, para muitos, somente ao coletar,
redigir, editar e publicar algo é que se faz o jornalismo tradicional e com
credibilidade.
Afinal, o impresso perdeu
seu espaço?
Há quem acredite que os jornais
convencionais desaparecerão por completo na próxima década, levantando até
mesmo a questão da perenidade do papel. Além disso, o argumento que mais se
ouve é o fato de que, pela web, a notícia tem a instantaneidade necessária para
não ficar ultrapassada. “Os jornais impressos são publicados apenas uma vez por
dia, isso faz com que o jornal que a gente pega pra ler tenha as notícias do
dia anterior. Ninguém mais quer ler as notícias de ontem”, defende a
esteticista Suzana Couto, de 34 anos. “Além disso, quem quer guardar algo
interessante precisa ter espaço e até tempo pra conservar o papel. Eu guardo
tudo online. É prático e nunca vai rasgar ou estragar” completa.
Uma questão ainda mais séria é o
acesso à informação. O que antes era privilégio de poucos, hoje, com a internet
e as redes sociais, é um direito de todos. “Eu acredito que o jornalismo de
internet nos salvou, porque antes somente as empresas jornalísticas tinham
acesso às notícias e podiam, inclusive, manipular como quisessem”, diz o
estudante Pedro Amaral, de 23 anos. “Hoje em dia, qualquer pessoa com celular
pode registrar o que quer”, explica. “Agora, por exemplo, na questão dos
manifestos, a mídia tradicional não dava a notícia pra gente em tempo real. Mas
tinha a mídia ninja, que nos informava o tempo todo pela internet. Isso pra mim
é jornalismo. E não ficar só lendo o que alguém quer”, diz.
Em contrapartida, muitos afirmam que
os jornais não desaparecerão pela credibilidade que passam. “Muita gente na web
faz jornalismo sem responsabilidade. No jornal impresso as pessoas sempre vão
acreditar” defende o jornalista Márcio Carvalho, de 53 anos. “Abrir um blog é a
coisa mais fácil do mundo, e a internet virou terra de ninguém. Não dá pra
acreditar no que se lê” completa. A opinião de Carvalho é também a de muitas
outras pessoas, como a advogada Ana Paula Teixeixa, de 42 anos, que prefere
esperar, mas ter certeza de que pode confiar no que leu. “Eu prefiro só ter a
notícia no dia seguinte, mas saber que a coisa realmente aconteceu. E que
aconteceu daquele jeito. Na internet, muitas vezes, a gente não sabe nem quem
escreveu o que lemos”, diz.
Independente do fato de o jornal
impresso desaparecer ou não daqui há alguns anos, o que se pode afirmar com
convicção é que o jornalismo na web cresceu progressivamente na última década e
que esse crescimento fez com que o jornalista repensasse o jeito de trabalhar. A
preocupação com a audiência passou a influenciar na forma como se dá a notícia
e o formato do texto teve que se adaptar à pressa dos novos tempos. Só o tempo
dirá se o impresso vai acabar, mas o que se sabe é que o que antes reinava
absoluto, hoje tem um concorrente à altura.
A mídia
Ninja e os protestos pelo Brasil
A Mídia
Ninja – uma sigla para Narrativas Independentes,
Jornalismo e Ação - é um
grupo que tem como objetivo principal ser uma alternativa à imprensa tradicional. Os
ninjas são, em sua maioria, jovens voluntários, que, espalhados nacionalmente, contribuem com
transmissões ao vivo pela internet, através de seus smartphones, formando uma
grande rede de informação alternativa.
Atualmente, a Mídia Ninja está concentrada
em atos contra os governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo. No Rio, há
cerca de três meses, a maioria dos vídeos postados cobre um protesto em
especial: o movimento “Ocupa Cabral”, no Leblon, em frente à casa do governador. Além de pedirem a saída
de Sérgio Cabral do cargo, os manifestantes acampados lutam pela
desmilitarização da polícia, por reformas nos setores de Educação e Saúde,
e por uma resposta ao desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, que
sumiu depois de ser detido por policias da Unidade de Polícia Pacificadora
(UPP) da Rocinha.
A
Mídia Ninja tem a vantagem de conseguir ficar bem próxima dos manifestantes e
dos policiais que, eventualmente, os reprimem. Bruno Andrade de Souza, de 27
anos é morador do Leblon e não participa do movimento “Ocupa Cabral”, mas apoia
a iniciativa e acredita que essa proximidade da Mídia Ninja serve como uma
proteção para os jovens que protestam. “Com câmeras apontadas, os policiais não
podem agir de forma abusiva e eu acredito que isso protege os manifestantes.
Aposto que, de outra forma, caso não tivesse essa cobertura, eles já teriam
sido expulsos violentamente”, acredita.
Por
outro lado, há a preocupação com esse tipo de jornalismo, já que, para muitos, o que é publicado atende aos interesses de um grupo, que decide o que
e como publicar. “A partir do momento que você posiciona a câmera para um lado
e não o outro, você já escolheu o que quer mostrar. Não tem como dizer que a
Mídia Ninja ou que qualquer outro veículo é imparcial”, diz Cláudia Pereira, de
43 anos, advogada e moradora do Leblon. “O jornalismo era pra ser um serviço publico,
mas só atende interesses, é difícil acreditar”, conclui.
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