Imediatismo e velocidade são os pontos
que mais influenciam na qualidade dos textos
Marianna Firme
Jornalismo
impresso versus jornalismo online. De um lado, a
reflexão. De outro, o imediatismo e a velocidade. A internet promoveu uma
mudança de comportamento desde que começou a fazer parte do cotidiano das
pessoas. Pequenos prazeres como tomar o café da manhã folheando as
páginas de um jornal e ficar com os dedos sujos de tinta não foram suficientes
para conter o avanço. A saída, então, foi render-se aos encantos do mundo
virtual. Não foi à toa que muitos veículos de comunicação migraram para a web
chegando, até, a publicar conteúdos exclusivos na plataforma.
Alguns
profissionais da área, porém, acreditam que, como diria o poeta alagoano
Geraldino Brasil, “a pressa aniquila o verso”. Apesar de haver a interação com
o leitor de uma forma mais direta, devido aos comentários em tempo real, e
existir a possibilidade de selecionar as notícias que serão lidas, o jornalista
Geneton Moraes Neto acredita que o imediatismo pode prejudicar a qualidade da
apuração e,
consequentemente, da matéria.
consequentemente, da matéria.
- Com o dia a dia
e com as exigências industriais do jornalismo, você acaba não tendo tempo de
fazer uma apuração bem feita. E eu acho que é aquela velha história e fórmula
que todo mundo diz e não pratica. Precisamos transformar o jornalismo em algo
interessante. Não, apenas, reproduzir os fatos.
Na mesma linha
de pensamento, a estudante de jornalismo da
PUC-Rio Juliana Faria reconhece as vantagens do jornalismo cibernético, mas ressalta a baixa qualidade da maioria dos textos.
PUC-Rio Juliana Faria reconhece as vantagens do jornalismo cibernético, mas ressalta a baixa qualidade da maioria dos textos.
- O bom de ler
jornal na internet é que a gente consegue as informações rapidamente. Temos na
ponta dos dedos um universo de conhecimento muito vasto. Só que essa rapidez,
muitas vezes, faz com que o texto não seja bem escrito ou as informações
colocadas ali se apresentem de uma maneira superficial – argumenta.
Parece, então,
que o ditado popular “a pressa é inimiga da perfeição” tem fundamento. Pensando
nisso, outra questão apontada pelo também jornalista Arthur Dapieve é o mau uso
da língua portuguesa.
- Acho que esse
não é um problema só dos novos jornalistas que se utilizam da internet como
principal ferramenta de trabalho. Os antigos também estão acomodados. Então, o
texto acaba que fica muito pobre. Tem uma vida muito superficial.
Quem disse que precisa haver batalha?
Mesmo com os
questionamentos e hipóteses, o jornalismo online é uma realidade. Um exemplo é
a Mídia Ninja que, desde as manifestações de junho deste ano, faz as coberturas
via rede.
Ontem, a
manchete da versão online do Globo
era sobre o leilão do Campo de Libra. O fato ocorreu no mesmo dia e, com rapidez,
já estava na internet. Hoje, o jornal impresso buscou noticiar os
desdobramentos e fazer matérias com um tom mais analítico.
Por isso, para a
aluna de Artes Cênicas da PUC-Rio Julianna Oliveira, cair na web primeiro não necessariamente é uma
ameaça ao jornal impresso.
- Eu não sou
jornalista, mas como leitora, acho que tem espaço para os dois. O jornal
impresso tem textos com um tom mais autoral e reflexivo que são interessantes
para nos aprofundarmos em algum assunto. Já as notícias que saem na internet,
são mais diretas. Então, acho que os dois conseguem coexistir por muito tempo
ainda. Sem um precisar derrubar o outro – declara.
Mídia Ninja ajuda manifestantes do
Leblon
Fim de tarde no Leblon. Aos pés do morro
Dois Irmãos, nove barracas. Caçambas de lixo e cones de trânsito servem de
barricada para aqueles que estão, há pouco mais de um mês, ocupando a Avenida
Delfim Moreira.
O movimento “Ocupa Cabral” começou logo
após as manifestações de junho. Militantes de diversas vertentes estão
acampados em frente à Aristides Espínola, rua onde o Governador Sérgio Cabral
mora.
Intrigado com a imagem, o turista
canadense Zorm Kukoljaz interrompeu o passeio de bicicleta para observar.
Quando questionado sobre o que estava acontecendo, a resposta veio com um tom
de pergunta.
-
That´s what i´m going to ask. (Isso
era o que eu ia perguntar).
Expliquei a ele e a resposta veio em
forma de apoio aos jovens manifestantes.
- As pessoas no país devem fazer isso.
Lutar de forma democrática.
Do outro lado da calçada, se arriscando
entre os carros, um fotógrafo se aproximou. Depois de alguns ‘cliques’, foi a
minha vez de me aproximar.
- Pessoalmente, eu acho que eles estão
com a razão. Estão fazendo o que eu, por exemplo, não posso - declarou Pablo
Jacob, fotojornalista do jornal O Globo.
No decorrer da conversa, foi mencionado
o nome da Mídia Ninja. O que um repórter da chamada “grande mídia” pensaria a
respeito dela? Errado quem achou que ele faria uma crítica.
- A tecnologia está ai. As redes
sociais... Eles têm que aproveitar. Não sou contra - afirmou.
Observando da ocupação, quatro dos
manifestantes chegaram perto. Três rapazes. Uma menina. Luiza Dreyer era o nome
dela. Com os rostos tampados, dois dos rapazes ficaram irritados com Jacob.
- Você quer tirar foto? Então tira
‘namoral’ (sic). ‘Tava’ (sic) aí se escondendo - disse um deles.
Depois de tentar argumentar para se
defender, o jornalista se afastou. Luiza manteve a voz baixa, mas os meninos
não estavam com muita paciência.
- A Globo é pior que o Estado! - gritou
outro.
- Já quiseram nos tirar várias
vezes daqui. Outra questão é que, por sermos um movimento horizontal e sem
liderança, muitas vezes é difícil conciliar as opiniões diferentes - desabafou
Luiza.
Com uma dívida de R$ 150 gastos em banho
no Posto 12 e cerca de duzentos mandatos de prisão, a criminalização do
movimento pela mídia tradicional é outro empecilho. O que salva, segundo Luiza,
são as mídias alternativas, principalmente a Ninja.
- Independente do radicalismo, estou
aberta ao diálogo. E a Mídia Ninja sempre tem ajudado muito - declarou.
Sem qualquer tipo de vandalismo ou lixo
espalhado, aquelas barracas interviram de maneira notória em um dos cartões
postais da cidade. Um grupo de funcionários da Prefeitura fazia uma ronda perto
da ocupação. Um deles falou: - Deixa eles. Todo mundo tem o direito de
reivindicar.
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