terça-feira, 22 de outubro de 2013

Jornalismo na internet: a pressa que pode aniquilar a notícia

Imediatismo e velocidade são os pontos que mais influenciam na qualidade dos textos
                                                   Marianna Firme
Jornalismo impresso versus jornalismo online. De um lado, a reflexão. De outro, o imediatismo e a velocidade. A internet promoveu uma mudança de comportamento desde que começou a fazer parte do cotidiano das pessoas. Pequenos prazeres como tomar o café da manhã folheando  as páginas de um jornal e ficar com os dedos sujos de tinta não foram suficientes para conter o avanço. A saída, então, foi render-se aos encantos do mundo virtual. Não foi à toa que muitos veículos de comunicação migraram para a web chegando, até, a publicar conteúdos exclusivos na plataforma.
Alguns profissionais da área, porém, acreditam que, como diria o poeta alagoano Geraldino Brasil, “a pressa aniquila o verso”. Apesar de haver a interação com o leitor de uma forma mais direta, devido aos comentários em tempo real, e existir a possibilidade de selecionar as notícias que serão lidas, o jornalista Geneton Moraes Neto acredita que o imediatismo pode prejudicar a qualidade da apuração e, 
consequentemente, da matéria. 
- Com o dia a dia e com as exigências industriais do jornalismo, você acaba não tendo tempo de fazer uma apuração bem feita. E eu acho que é aquela velha história e fórmula que todo mundo diz e não pratica. Precisamos transformar o jornalismo em algo interessante. Não, apenas, reproduzir os fatos. 
Na mesma linha de pensamento, a estudante de jornalismo da 
PUC-Rio Juliana Faria reconhece as vantagens do jornalismo cibernético, mas ressalta a baixa qualidade da maioria dos textos.
- O bom de ler jornal na internet é que a gente consegue as informações rapidamente. Temos na ponta dos dedos um universo de conhecimento muito vasto. Só que essa rapidez, muitas vezes, faz com que o texto não seja bem escrito ou as informações colocadas ali se apresentem de uma maneira superficial – argumenta.  
Parece, então, que o ditado popular “a pressa é inimiga da perfeição” tem fundamento. Pensando nisso, outra questão apontada pelo também jornalista Arthur Dapieve é o mau uso da língua portuguesa.
- Acho que esse não é um problema só dos novos jornalistas que se utilizam da internet como principal ferramenta de trabalho. Os antigos também estão acomodados. Então, o texto acaba que fica muito pobre. Tem uma vida muito superficial.
Quem disse que precisa haver batalha?
Mesmo com os questionamentos e hipóteses, o jornalismo online é uma realidade. Um exemplo é a Mídia Ninja que, desde as manifestações de junho deste ano, faz as coberturas via rede.
Ontem, a manchete da versão online do Globo era sobre o leilão do Campo de Libra. O fato ocorreu no mesmo dia e, com rapidez, já estava na internet. Hoje, o jornal impresso buscou noticiar os desdobramentos e fazer matérias com um tom mais analítico.
Por isso, para a aluna de Artes Cênicas da PUC-Rio Julianna Oliveira, cair na web primeiro não necessariamente é uma ameaça ao jornal impresso.

- Eu não sou jornalista, mas como leitora, acho que tem espaço para os dois. O jornal impresso tem textos com um tom mais autoral e reflexivo que são interessantes para nos aprofundarmos em algum assunto. Já as notícias que saem na internet, são mais diretas. Então, acho que os dois conseguem coexistir por muito tempo ainda. Sem um precisar derrubar o outro – declara.

                                           Mídia Ninja ajuda manifestantes do Leblon   
Fim de tarde no Leblon. Aos pés do morro Dois Irmãos, nove barracas. Caçambas de lixo e cones de trânsito servem de barricada para aqueles que estão, há pouco mais de um mês, ocupando a Avenida Delfim Moreira.
O movimento “Ocupa Cabral” começou logo após as manifestações de junho. Militantes de diversas vertentes estão acampados em frente à Aristides Espínola, rua onde o Governador Sérgio Cabral mora.
Intrigado com a imagem, o turista canadense Zorm Kukoljaz interrompeu o passeio de bicicleta para observar. Quando questionado sobre o que estava acontecendo, a resposta veio com um tom de pergunta.
- That´s what i´m going to ask. (Isso era o que eu ia perguntar).
Expliquei a ele e a resposta veio em forma de apoio aos jovens manifestantes.
- As pessoas no país devem fazer isso. Lutar de forma democrática.
Do outro lado da calçada, se arriscando entre os carros, um fotógrafo se aproximou. Depois de alguns ‘cliques’, foi a minha vez de me aproximar.
- Pessoalmente, eu acho que eles estão com a razão. Estão fazendo o que eu, por exemplo, não posso - declarou Pablo Jacob, fotojornalista do jornal O Globo.
No decorrer da conversa, foi mencionado o nome da Mídia Ninja. O que um repórter da chamada “grande mídia” pensaria a respeito dela? Errado quem achou que ele faria uma crítica.
- A tecnologia está ai. As redes sociais... Eles têm que aproveitar. Não sou contra - afirmou.
Observando da ocupação, quatro dos manifestantes chegaram perto. Três rapazes. Uma menina. Luiza Dreyer era o nome dela. Com os rostos tampados, dois dos rapazes ficaram irritados com Jacob.
- Você quer tirar foto? Então tira ‘namoral’ (sic). ‘Tava’ (sic) aí se escondendo - disse um deles.
Depois de tentar argumentar para se defender, o jornalista se afastou. Luiza manteve a voz baixa, mas os meninos não estavam com muita paciência.
- A Globo é pior que o Estado! - gritou outro.
 - Já quiseram nos tirar várias vezes daqui. Outra questão é que, por sermos um movimento horizontal e sem liderança, muitas vezes é difícil conciliar as opiniões diferentes - desabafou Luiza.
Com uma dívida de R$ 150 gastos em banho no Posto 12 e cerca de duzentos mandatos de prisão, a criminalização do movimento pela mídia tradicional é outro empecilho. O que salva, segundo Luiza, são as mídias alternativas, principalmente a Ninja.
- Independente do radicalismo, estou aberta ao diálogo. E a Mídia Ninja sempre tem ajudado muito - declarou.
Sem qualquer tipo de vandalismo ou lixo espalhado, aquelas barracas interviram de maneira notória em um dos cartões postais da cidade. Um grupo de funcionários da Prefeitura fazia uma ronda perto da ocupação. Um deles falou: - Deixa eles. Todo mundo tem o direito de reivindicar.         

Nenhum comentário:

Postar um comentário