‘O jornal é a materialidade do passado’
Gabriel Vasconcellos
A doutora em
literatura e professora de teoria da comunicação e cultura brasileira da
PUC-Rio Luísa Melo afirma que, na eventual extinção do jornal impresso, a
sociedade afirmaria a valorização do futuro, uma vez que o veículo em papel é,
além de um conjunto de notícias, uma documentação do passado. O newspaper, em inglês, fica evidente a
importância da novidade, pois new
significa novo, é datado, portanto, tudo o que está registrado torna-se
obsoleto com o avanço dos dias. Segundo ela, a digitalização desses materiais
vai ao encontro de um compromisso ético da sociedade com a história.
Além disso, as
transformações tecnológicas impuseram novo ritmo à contemporaneidade, afetando
todas as esferas da vida das pessoas. Luísa cita Pierre Levy para explicar o
que o filósofo francês chama de “compressão espaço-tempo”, fenômeno atual em
que as distâncias são encurtadas porque o tempo é soberano ao espaço. “O tempo
é mais rápido do que a possibilidade de deslocamento. A notícia do Afeganistão
chega aqui antes da notícia do assalto na padaria da sua esquina”, sintetiza a
professora. Sob esse aspecto, os periódicos podem ser preteridos diante das
mídias digitais porque passam por um processo mais demorado, que abarca desde o
trabalho jornalístico de desenvolvimento de uma matéria até as etapas de
produção industrial e de distribuição do jornal.
Meio mais confiável
Em 2013, a pesquisa
da consultoria norte-americana Future Exploration Network determinou quando os
jornais desaparecerão. O fenômeno da extinção começará pelos Estados Unidos, e
o último veículo deve acabar em 2017. O último a se desmantelar no mundo é um
argentino e o fato deve ocorrer em 2039. No caso do Brasil, a extinção está
prevista para 2027.
Embora três em
cada quatro brasileiros não leiam o impresso, segundo pesquisa da Secretaria de
Comunicação (SECOM) da Presidência da República, realizada no início deste ano,
o meio é também o mais confiável para 53% dos entrevistados. A internet
amealhou a confiança de 28% das pessoas. O estudo encomendado pelo governo
mostra ainda que há disparidades na comparação entre as regiões do país. O
tempo de leitura, por exemplo, varia de 45 minutos no estado de Tocantins a
2h12m em Goiás. O tempo despendido para a leitura de jornal impresso, na média,
é de 1h05m.
A competição
entre o impresso e o online comumente leva ao senso comum de que as mudanças
tecnológicas são prejudiciais. Elas ocorrem para atender às necessidades da
sociedade, que passa a adotar estilos de vida e comportamento distintos das
gerações anteriores. “Acho que é positiva (a
mudança) se você pensar nas necessidades do homem atual, porque corresponde
a esse tempo. Ela é negativa na medida em que está ‘tecnologizando’ a
sociedade, tornando-a mais técnica, menos humana e menos pessoal. Ela é positiva,
ela é negativa, mas, sobretudo, ela é histórica, é um fato”, analisa a
professora.
Jornal do Brasil deixa saudade
“Do JB eu tenho as melhores memórias. Era o
dia inteiro praticamente porque o jornal impresso, a gente consegue degustar
melhor. Eu não leio jornal numa hora só. Primeiro eu faço uma leitura dinâmica
e depois, então, eu leio aos poucos, os artigos, as matérias que mais me interessam.
O horário é indefinido”. A senhora Enyr Calasans, de 84 anos, médica aposentada
e moradora da Tijuca, chega a mudar o tom de voz para relatar a falta que sente
da extinta versão impressa do Jornal do
Brasil.
Ela conta ainda
que o fim do veículo foi muito ruim porque as notícias que lia complementavam
as que ouvia na TV Globo. “E agora não tenho mais o Jornal do Brasil porque eu não me atualizei mais. Na parte da internet,
só receber e enviar e-mail”, diverte-se.
Enyr começou a
interessar-se pela leitura de jornais motivada pelo curso de especialização em Saúde Pública na Fiocruz, na década de 1970. Revela que sempre considerou economia um
campo obscuro, mas reconhece que a falta de mais conhecimentos facilita ser
enganada pelas pessoas. Ela conta que, na verdade, gosta de um pouco de tudo. E
a memória funciona bem – narra o conteúdo do JB como quem acabara de lê-lo pela
manhã. “Eu gostava de ler as colunas do Villas-Boas Corrêa, da Danuza (Leão), do Mauro Santayana, Carlos
Castello Branco, da Dora Kramer”.
Por fim, inverte
os papeis e pergunta ao jovem repórter que em que área gostaria de trabalhar.
Ao ouvir um tímido “Economia”, Enyr recomenda: “Faço votos de muito sucesso
para que cuide bem do dinheiro da ‘Viúva’”.
Impresso ou online?
·
Bruna Lima, 22
anos, estudante de design gráfico:
o “As matérias do globo.com são péssimas, mas o
impresso tem o conteúdo mais completo. O site é muito bom para ver imagens, mas
sempre fico com dúvidas”.
o “(O jornal)
pode ser levado para atividades ao ar livre, como ir à praia ou caminhar na Lagoa.
É mais seguro do que se levasse o tablet, por exemplo”.
·
Alexandre Nunes,
40 anos, professor universitário:
o “Com o impresso, além de ter de ir à busca do
jornal, seja procurar um jornaleiro ou esperar receber em casa, há a limitação
do tempo, enquanto que a dinâmica do online é diferente. Acaba facilitando”.
o “A desvantagem (do
impresso) é que no online você acaba não vendo outras notícias que
eventualmente você passaria o olho quando lê o impresso”.

Prezado Gabriel Vasconcellos, apenas um reparo: meu interesse na leitura do JB se deu após o Curso de Especialização em Saúde Pública na FIOCRUZ, na década de 1970, quando já exercia a MEDICINA, Enyr de A. C. Maia.
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