terça-feira, 7 de outubro de 2014

A internet não derrubou o papel


Consumidores veem as duas plataformas como fontes de conteúdos diferentes

Katharina Reis Farina

O fantasma que assombra bancas de jornal, gráficas e redações dos grandes veículos impressos atual está mais para Gasparzinho. A responsabilidade da queda de venda dos jornais impressos não é só da popularização da internet. Pelo menos é o que o professor Matthew Gentzkow, da Universidade de Chicago, defende no estudo Trading dollars for dollars: the price of attention online and off-line, publicado na edição de maio da American Economic Review. Gentzkow coletou dados para comprovar que a queda nas vendas de jornais na Inglaterra é tão acentuada de 1980 a 1995, antes da internet, quanto depois.
Ele também derrubou a falácia relacionada ao preço dos anúncios: ele não é mais baixo na mídia online. Isso porque os leitores passam mais tempo com publicações impressas, ou seja, mais tempo olhando os anúncios nelas. Dessa forma, uma hora de atenção do consumidor na propaganda impressa sai a US$2,78, enquanto custaria US$3,79 num reclame online do mesmo tamanho.
Ainda há muita informação errada na internet sobre as preferências dos leitores, também. Sites como o fórum Medium, que serve de espaço para revistas e artigos independentes, têm reportagens maiores do que seria possível publicar no impresso com repercussão maior. O editor-chefe do site de jornalismo ambiental ((o))eco, Eduardo Pegurier estuda a escrita online desde o começo da rede virtual e conta que, no começo, havia um tabu quanto ao tamanho dos textos: não poderiam ter mais de 2500, três mil toques. Já hoje em dia, há quem defenda matérias de pelo menos dez mil caracteres.
Para Pegurier, o pânico também não tem motivo:
– Na minha experiência, as tecnologias duram mais do que a gente imagina. Porque é algo caro de produzir, caro de distribuir, e que você tem cada vez mais maneiras de você consumir através de outros dispositivos. A questão não é o conteúdo do impresso – a questão é se ele virá via papel, via tablet, via outras tecnologias.

Carolina Porto, 21 anos, estudante de Design na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), cresceu na era digital e mesmo assim não abre mão do papel: “Uso a internet porque não tem como usar, mas prefiro fazer tudo em papel - desenhar, anotar as coisas e ler; não só notícias, mas tudo. Não gosto dessa ideia de que o digital vai substituir o papel. Eu acho que os dois têm utilidade, sabe?”


O que espera o novo jornalista

O debate sobre o futuro do impresso criou um debate dentro das próprias redações dos jornais. Depois da era da especialização no século XX, a tendência de mercado dos “profissionais multiuso” ainda precisa se provar tão eficaz quanto promete. O jornalista em formação hoje é treinado para fazer matérias multimídias: além do texto, precisa filmar ou fotografar a notícia, para aumentar a credibilidade da reportagem e dar ao leitor formas de usar todas as facilidades oferecidas pela plataforma online.
Surge o problema: quem sabe fazer tudo, sabe fazer com qualidade? A economia de dinheiro na contratação de um profissional para trabalhar por, no mínimo, dois (o repórter e o fotógrafo ou cinegrafista) poderia acabar custando aos jornais no número de leitores, que diminuiria na mesma proporção que a qualidade do conteúdo. Para Chico Otávio, jornalista do Globo, as redações precisam diferenciar e direcionar cada um de acordo com as vocações.
– Tem cara que é bom no declaratório. Tem outro que é contador de histórias. É um erro fazer essa mistura. Entendo que estamos vivendo um momento experimental, mas isso não vai funcionar eternamente.
Chico acredita que a solução para as vendas dos jornais impressos não seria a divisão em nichos de conteúdo, como é discutido pela imprensa atual. E sim nas especializações dos jornalistas.


Motivos para ler (ou não) o impresso

  • Wanda Rocha, 61 anos, técnica de Comunicação Social na Secretaria de Turismo do município do Rio de Janeiro: “Me divirto lendo as colunas sociais. Assino o jornal de quinta a domingo, e vou deixando formar pilhas para ler no fim de semana.”
  • Suely Reis, 75 anos, professora aposentada: “Tem muito repeteco da TV do dia anterior.”
  • Ilan Gryszpan, 20 anos, estudante de Engenharia da Computação na PUC-Rio: “Os editoriais online são muito mais completos, é mais barato e evita desperdício de papel.”
  • Jun Tomida, 24 anos, estagiário na empresa de consultoria empresarial Boston Consulting Group: “Eu faço tudo online, ler online faz sentido. E tem o fator de não acumular pilhas de jornal em casa.
  • Eduardo Pegurier, 51 anos, editor-chefe do site de jornalismo ambiental ((o))eco. “Eu acho que a geografia foi explodida – online, você vai ler as coisas que você acha legal, na língua que você curte.”

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