Desde 2013, “O Globo” e “Folha de S.
Paulo” limitam o acesso às notícias do site
João Pedro Fonseca
Por muito tempo, o
jornal impresso foi a principal fonte de informação das famílias brasileiras.
Com o surgimento de veículos como o rádio e da TV, o papel perdeu parte de seu
espaço, mas nunca teve o futuro tão incerto quanto hoje. O fantasma da vez é o
consumo de notícias pela internet, meio que ainda busca sua identidade, mas já
afugenta o público jovem do contato com o papel.
As plataformas digitais
ainda buscam uma lógica de funcionamento particular. Mas, para os donos dos
principais veículos de mídia do mundo, já é hora de expandir o lucro através da
cobrança por acesso ao conteúdo online. Uma das opções é transformar o serviço
que era gratuito em um modelo “freemium”, junção das palavras “free” (livre, em
inglês) e “premium”, que identifica um conteúdo pago ou por assinatura. Os dois
jornais mais importantes do país – “Folha de S. Paulo” e “O Globo” – adotaram
essa medida. É possível ler um determinado número de notícias (30 por mês no
jornal carioca, por exemplo) sem pagar nada. Se quiser consumir mais do que
isso, o leitor terá que pagar pelo serviço.
O jornal “O Globo”,
após a inauguração de um parque gráfico em 1998, chegou a vender um milhão e
200 mil exemplares aos domingos. Dados mais recentes da empresa dão conta de
que esse número hoje é de 300 mil exemplares, sendo 180 mil na versão digital.
Além disso, o site recebe até 20 milhões de acessos por mês. Para a jornalista
Marilia Martins, que ministra aulas de jornalismo para a web na PUC-Rio, esses
números revelam uma migração cada vez mais acentuada para o digital e explicam
a mudança recente na empresa. “A redação reformulou toda a sua rotina diária de
trabalho para privilegiar o digital. Não acho que o impresso vai acabar inteiramente,
mas vai se tornar um produto de luxo: caro para assinantes, caro para
anunciantes”, opinou.
Marilia explica que a
transferência de público do impresso para o online é um fenômeno global.
Segundo ela, as motivações são econômicas e culturais. O aspecto financeiro
pesa para leitores e produtores, já que é mais barato (em alguns casos até de
graça) consumir notícias pela internet e se gasta menos uma vez que a
matéria-prima, a impressão e a distribuição de jornais representam um custo
enorme para as grandes empresas. A motivação cultural é reflexo do
amadurecimento da primeira geração que nasceu imersa na internet e, por isso,
consome informação e cultura de forma diferente.
Essa nova forma de
consumo nem sempre vem atrelada a um site de notícias. Hoje, redes sociais como
Twitter e Facebook são espaço de compartilhamento de informações e opiniões.
Como esses sites investem na personalização do conteúdo, o leitor digital está
propenso a ser um conhecedor amplo de assuntos de seu interesse e, ao mesmo
tempo, sequer receber informações de áreas relevantes, como economia, por
exemplo, que não são selecionadas pelos filtros da rede social. Para Marilia, o
jornal impresso não deve deixar de ser um veículo amplo, mas pode investir em
conteúdo personalizado. “O jornal poderia oferecer assinaturas de cadernos
específicos, de edições regionais, de fim de semana”, exemplificou.
Credibilidade vem do
impresso
Com o crescimento da
demanda por conteúdo online, aumentam-se os debates sobre a veracidade e a
credibilidade das informações que circulam na rede. A web é um ambiente de
limites turvos, mas é fato que as principais publicações impressas carregam
para o ambiente virtual a confiança dos leitores. O americano “The New York
Times” e o britânico “The Guardian”, por exemplo, têm leitores digitais
adquiridos após décadas de serviço impresso.
Para a jornalista
Marilia Martins, essa condição também se estende aos veículos locais. Ela explica que a credibilidade dos jornais
brasileiros continua alta, ainda que veículos das Organizações Globo ou da
Abril, por exemplo, sejam alvos de críticas frequentemente. “Este questionamento
de credibilidade tem razões ideológicas, trata-se bem mais de uma interrogação
sobre o monopólio da informação que atinge um público de larga escala, e não
tem a ver com o fato de o jornal ser impresso ou digital”, explicou.
Quando soube da queda
do avião que transportava o político Eduardo Campos, em agosto, a professora
Luciana Collier foi à internet para buscar outras informações. Apesar de adorar
redes sociais, ela escolheu o site G1, da Globo.com, para se informar melhor.
“Facebook é diversão. O G1, apesar de não ser operado pelas mesmas pessoas, faz
parte das Organizações Globo, que leio há muito tempo. Por isso, confio”,
detalhou. Em situações urgentes como essa, a internet ainda oferece a vantagem
de ser imediata. “Fico sabendo na hora”, finalizou.
Abandonar ou não?
Patrícia Nascimento, 31 anos, gestora
ambiental: “É muito mais prático se informar pela internet. Hoje, os maiores
veículos de comunicação estão disponíveis em aplicativos para celular. Com
isso, podemos ler a qualquer momento e em quase todos os lugares através dos smartphones”.
Carlos Magno Ruddy, 50 anos, engenheiro
civil: “Eu ainda sou assinante do impresso, mas recebo o jornal na minha casa.
Nem sempre estou lá, então passei a ler bastante através do tablet, que está
nas minhas mãos a qualquer momento e permite ler em quase todos os lugares”.
Luciana Collier, 43 anos, professora:
“Fui leitora do ‘Jornal do Brasil’ quando era mais nova, mas, hoje, minhas
fontes de informação cotidianas são a televisão e o online. Por falta de tempo,
só leio o impresso aos domingos.”
Karina Gaudereto, 20 anos, estudante de
jornalismo: “O futuro está no digital. Apesar de acreditar na manutenção da
hierarquização da notícia, creio que a praticidade, a economia e a preservação
ambiental impulsionarão a substituição do papel pelo digital. Eu já troquei
pelo tablet”.
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